quarta-feira, 13 de abril de 2011

A biblioteca de Gonçalo M. Tavares

Por Luiz Lopes
Via caderno de Caligrafia

Esta semana comprei um livro curioso de um autor ainda pouco lido por mim. Trata-se do exemplar Biblioteca, do escritor português Gonçalo M. Tavares, cujos prêmios e textos críticos sobre sua obra fazem qualquer apresentação ficar irrelevante. O livro foi publicado no Brasil em 2009.

Outros textos do escritor estão chegando por aqui, como o seu Uma viagem à Índia, cuja leitura iniciei esta semana também.

Talvez o aspecto mais interessante dessa obra seja o fato de que o próprio livro se converte numa biblioteca. Contra uma leitura linear, podemos ler um ou dois fragmentos do livro e voltarmos para ler outros anos depois. Cada fragmento do livro tenta expressar o universo ficcional de grandes escritores, como Musil, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e Paul Celan, numa coleção/constelação que possui os maiores exemplares da literatura ocidental.

Gonçalo Tavares explica em nota introdutória sua proposta: “O ponto de partida deste livro é a obra dos autores – nunca aspectos biográficos. Uma ideia ou apenas uma palavra mais usada pelo escritor (por vezes, mesmo associações inconscientes e puramente individuais) estão na origem do texto. Mas cada fragmento segue o seu ritmo próprio. [...] Agrada-me a ideia de que alguém possa ler alguns fragmentos hoje e outros daqui a alguns anos”.

Segue o fragmento sobre Clarice Lispector, o primeiro que li:

“Uma barata pode ser mais importante que um imperador. Se os teus olhos olharem mais tempo para uma barata do que para um imperador, a barata se tornará mais importante que o imperador. Chamamos imperador ao imperador, e barata à barata, porque a média dos olhos humanos olha mais tempo para o imperador do que para a barata.

‘O que é um revolucionário?’, pergunta-me a minha filha de 3 anos, e eu respondo: ‘É quem olha mais tempo para uma barata do que para um imperador.’

‘E o que é um imperador?’, pergunta-me minha filha. ‘É aquele que não deixa que se olhe demasiado tempo para a barata’, respondi.

E, por favor, não me faças mais perguntas".

TAVARES, Gonçalo M. Biblioteca. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2009.

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