sexta-feira, 19 de abril de 2013

42 (ou uma resenha sobre o Guia do Mochileiro das Galáxias)


Por Luisa Santos*
De BH

É uma quinta-feira quando as coisas começam a dar muito errado para Arthur Dent. Não é nem meio dia quando sua casa é demolida para ceder espaço a um desvio de estrada, ainda não tinha almoçado quando seu amigo Ford Prefect revelou que é, na verdade, um alienígena de um planeta perto de Betelgeuse, e não de Guildford, como costumava dizer, e o planeta Terra é destruído para ceder espaço à uma hipervia espacial.


Escapando do fim do mundo por um triz, Arthur se torna, de repente, o único sobrevivente de um planeta varrido do mapa. Munido de um curioso livro chamado O Guia do Mochileiro das Galáxias, uma toalha e da companhia de seu amigo Ford, o terráqueo vai desbravar o universo e encontrar respostas para perguntas cuja resposta ele nunca quis saber, e isso tudo sem gastar mais de 30 dólares altarianos por dia.

Esse é o ponto de partida para O Guia do Mochileiro das Galáxias, série de cinco livros que já vendeu mais de 15 milhões de exemplares ao redor do mundo. Escrito por Douglas Adams, a história acompanha as desventuras de um terráqueo que, de uma hora para outra, se vê sem casa e sem planeta de origem, e que tenta se entender com as mais bizarras formas de vida e as situações mais impossíveis, e isso sem perder a sua toalha.

Martin Freeman, Zooey Deschanel, Yasiin Bey e Sam Rockwell na adaptação de 2005 do Guia do Mochileiro.


Inicialmente uma série de rádio para a BBC Radio 4, transformou-se posteriormente em uma compilação em fita cassete. Apenas quando Adams decidiu escrevê-la como livros que a série alcançou uma projeção internacional e se tornou um Best-seller – sendo transformada, inclusive, em uma série de TV e em filme. Utilizando-se do já reconhecido humor inglês, cheio de sarcasmo, ironia e piadas escondidas, o Guia cria uma narrativa cômica e recheada de bom humor, que nem por isso preza pela lógica e continuidade características de obras clássicas da ficção científica. Muito pelo contrário - a série é ilógica, irreal e tem uma boa dose de falta de senso, e é tudo de propósito.

Enquanto essa falta de lógica pode assustar os leitores em um primeiro momento, nada mais é do que mais um recurso utilizado por Adams – o irreal se torna cômico, a falta de senso, sarcástica, e o ilógico se torna irônico. Desta forma, enquanto a risada está estampada no impresso, a mensagem está nas entrelinhas. As situações absurdas, como um show de rock tão barulhento que sua plateia tem de ficar a 100 quilômetros de distância do palco, uma raça de alienígenas tão insuportavelmente burocrática que não levantaria um dedo para salvar a própria avó sem autenticar pelo menos dez documentos, um robô comissário de bordo resmungão que só sabe reclamar de ‘dor nos diodos’, ou um presidente cuja função oficial não é governar, e sim, desviar a atenção de quem realmente exerce o poder, são metáforas poderosíssimas de uma sociedade que conhecemos bem até demais, mas cujos detalhes escolhemos ignorar, tão absortos estamos em nós mesmos.

Além da sua importância literária, a série possui uma grande importância na cultura pop mundial. Elementos como a toalha – o objeto mais útil depois do próprio Guia, não somente por sua praticidade, que a torna aberta a inúmeras possibilidades, desde utilizá-la úmida em combates corpo-a-corpo até evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal e secar-se com ela se ainda estiver limpa o suficiente; mas também por seu valor psicológico, já que uma pessoa que pode fazer um mochilão pela galáxia e ainda saber onde está sua toalha é claramente uma pessoa de respeito – e o número 42, a Resposta Final da Grande Pergunta da Vida, do Universo e Tudo mais (embora, infelizmente, ninguém tenha se lembrado de formular qual exatamente seria esta pergunta), já se fixaram no imaginário popular.

Douglas Adams – Amigos afirmam que ele usou mais computadores Apple do que qualquer outro humano que não fosse Steve Jobs.

Apesar do tom de comédia, a série não deixa a desejar na crítica. Entre comentários sarcásticos sobre a percepção humana de seu lugar no mundo e no espaço, críticas ferrenhas a profissões que são efetivamente inúteis, ironias sutis e uma grande dose de teoria científica elevada ao descabido, Douglas Adams reflete em seus livros sua posição sobre os problemas ecológicos, a desvalorização da classe intelectual, e sua inabalável certeza de que só temos uma única oportunidade de fazer alguma diferença nesse mundo, e se marchamos para o esquecimento, podemos muito bem fazê-lo com classe.

Adams era conhecido nos círculos literários como um escritor que fazia “tudo, menos escrever”. Irreverente como sua obra, foi limpador de galinheiros, segurança da família real de Qatar, produtor de séries de rádio, roteirista e, por fim, escritor de uma das séries de ficção científica mais bem-sucedidas do mundo. Quando morre de um ataque cardíaco em 2001, aos 49 anos, deixa cinco livros da série O Guia – ‘O Guia do Mochileiro das Galáxias’, ‘O Restaurante no Fim do Universo’, ‘A Vida, O Universo e Tudo Mais’, ‘Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes’ e ‘Praticamente Inofensiva’, roteiros, críticas, um histórico de ativismo político e um curioso episódio onde escalou o Kilimanjaro vestido de rinoceronte.

O primeiro livro da série foi publicado há mais de três décadas – entretanto, o fascínio que a obra exerce não diminuiu com o tempo. Fãs do mundo inteiro celebram no dia 25/05 de todos os anos o Dia da Toalha, e com a dita cuja em mãos, saem pelas ruas celebrando a genialidade cômica de Adams. O próprio Google fez um Doodle especial para o aniversário do autor, e entra na brincadeira quando questionado sobre a resposta da Grande Pergunta da Vida, do Universo e Tudo Mais.

42 no google

Pronto para desbravar os confins inexplorados do universo? Junte-se a Arthur e Ford, pegue seu Guia e sua toalha e não se esqueça – Não entre em pânico!

*Luisa Santos é estudante do 3 ano do curso técnico em Equipamentos Biomédicos do CEFET/MG, tem o blog Estrelete e colabora com fóton Blog.

Um comentário:

Anônimo disse...

ótimo série!! adoraria ver a contnuação dos flmes.

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