quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A inquietude da criação de Bel Borba

Por Débora Alcântara*
Publicado na Revista do Núcleo de Arte e Decoração da Bahia em 2009

Entregar-se à inquietação. Estar atento a tudo de que possa nascer uma boa obra. Depois se ruminam as formas, os sabores, as linguagens, as texturas, o que se ouve, o que está no mundo, nas pessoas, os sentidos. Da miríade de informações, brota uma causa, depois um conceito, a escolha da matéria-prima e, finalmente, a obra é concebida. Esse é apenas o primeiro trajeto de Bel Borba na construção de sua arte, pois o artista plástico baiano não se contenta enquanto suas criações não cumprem o papel modificador dos espaços.

Do seu laboratório "fantástico", foi que nasceram os mosaicos, esculturas, cenários e instalações que povoam os muros, as encostas, os pontos de ônibus e viadutos da capital baiana. O que dizer da iguana em mosaico tatuando a encosta da Avenida Juracy Magalhães? E o painel de morcegos impregnados no túnel da Avenida Anita Garibaldi? Sem falar da cobra de aço de 85 m de comprimento na bica do Candeal. Toda essa intervenção urbana colore e ressignifica a paisagem da cidade, resgatando-a da atmosfera cinzenta a que as metrópoles geralmente são condenadas. “Eu gosto quando as pessoas se deparam com determinadas coisas em determinados lugares, e se perguntam por quê estão lá. É uma provocação, algo mágico, súbito, misterioso”, diz.

Mas não é só na Bahia que o artista desperta admiração. O típico soteropolitano, que diz nunca ter desejado morar noutro lugar, vem ganhando espaço para além do Atlântico. “Venho tendo uma boa representação na Suíça, onde as artes têm um giro muito intenso”, festeja. Em novembro de 2008, fez uma exposição de 50 pequenas esculturas e algumas telas na Basiléia. No mesmo ano, expôs também na famosa estação de ski de Arosa, no leste suíço. A última exposição, Água Grande, aconteceu em 2009, no Armazém 1 da Codeba, Salvador. Foram 24 trabalhos monumentais feitos a partir de sucatas de nav64ios. Tamanho está seu prestígio que, em junho deste ano, galeristas portugueses lançam no Brasil um vinho com seu nome.

Mesmo depois de três grandes exposições, Borba já tem planos de preparar uma nova coleção. “Ainda estou estudando seu conceito, mas enquanto isso, vou atendendo a algumas encomendas”, comenta. Uma dessas “encomendas”, para prestigiar os decoradores baianos, foi o Troféu Núcleo Destaque 2009, oferecido pelo Núcleo de Decoração da Bahia. “Obrigatoriamente eu quero que ele remeta à idéia de harmonia e equilíbrio. Essa será a veia do troféu: duas coisas que não são iguais e que se compensam”, adianta.

Durante entrevista concedida à Revista do Núcleo de Arte e Decoração da Bahia, Borba aproveita para defender a ousadia na decoração. “Uma escolha arrojada, petulante, inquieta, avançada, não anula a possibilidade do conforto”, explica, argumentado a favor da autonomia da obra de arte num ambiente: “Arte não tem que combinar. Ela não entra num ambiente para se encaixar bonitinho, harmonicamente, como uma almofada ou uma mesa de centro, mas para chacoalhar, intervir, transgredir, reagir, modificar, fazer pensar. Vamos continuar estreitando as fronteiras entre decoração e arte”, convoca.

Muito à vontade para falar sobre a conquista da legitimidade de seu estilo, Borba diz sentir-se na maturidade da profissão: “acho que o sucesso de um artista é quando ele tem certeza de que nunca vai deixar de fazer arte. Esse é um patamar muito especial e isso eu conquistei”.

Abaixo mais algumas obras do artista:







*Débora Alcântara é jornalista em Salvador.

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