quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Emagrecimento: Relato de um empreendimento bem sucedido

Por K.G.B.*
Publicado em 05 de Setembro de 2008 na revista Mystical Letters

Este artigo trata das questões relacionadas à busca incessante das mulheres por um padrão de magreza muitas vezes inatingível. Nessa luta de milênios, muito já se viu e ouviu acerca do assunto. Não faltaram inovações, criatividade e embuste do lado dos fornecedores de idéias e de produtos para emagrecer. Também, sabe-se que nunca houve resistência por parte das mulheres que, além de criar demanda, consomem o que se lhes irrompe pela frente, por mais bizarro que seja, quando se trata de perder peso e medidas. O relato que vou apresentar anuncia-se significativo, seja pelo ineditismo, baixo custo ou otimização de resultados.


Amparada pela coragem feminina frente aos sacrifícios em nome de uma aparência praticamente mórbida, deixo registrado neste artigo e patenteado no INPI um moderno e simples procedimento que levará as mulheres, do sonho à realização da mais gratificante magreza.

I. DO ÓCIO Á CRIAÇÃO 

O filósofo italiano, Domenico De Masi, não estava de todo enganado quando propôs em seu livro O Ócio Criativo (2000) que as pessoas, ao dar uma volta no quarteirão, manifestam-se superiormente aptas a criar do que aquelas que permanecem ininterruptamente atrás de uma mesa de escritório. E, contrariando as mais diversas ideologias do trabalho ("Deus ajuda quem madruga"; "O trabalho enobrece") ele ressalta a importância do movimento humano na busca do ócio em todas as suas formas, quais sejam, culturais, artísticas, de entretenimento, dos jogos, de viagens, dentre outros. Para De Masi, divertir-se nunca é De mais. Tanto que, ao referir-se à fase da aposentadoria, o autor revela a dificuldade dos indivíduos quando se defrontam com a falta do que fazer. Por não haver aprendido a exercitar o ócio, desconhecem outras maneiras de se ocupar senão pelo trabalho. Acabam alcoólatras, ele diz.

II. EXERCITANDO O ÓCIO 

Atenta aos ditames do citado autor, por cuja teoria me deixei envolver (todos deveriam!), estava em viagem com meu marido pelas estradas de Minas Gerais, exercitando a ociosidade tal qual manda o figurino De Masiano: aprendendo De Masiado. Os caminhos mineiros são surpreendentes. Ora você passa por uma plantação de café; ora dá com os olhos numa boiada de fazer gosto. É pasto e agricultura que não acaba mais.

 III. AS SURPRESAS QUE O ÓCIO NOS PREGA

Como é sabido por todos, o boi que está no pasto um dia vai virar bife de alcatra, picanha na churrasqueira, costela no forno, contra-filé, carne moída, filé mignon, hamburguer e outros quetais. Para chegar a isso, os bois (ou as vacas) precisam ser transportados para abatedouros geralmente distantes da área rural. Se antes, esses animais trafegavam em tropas comandadas pelos tropeiros com seus berrantes berrantes, hoje não passa despercebido que o deslocamento se dá em carretas modernas apropriadas para esse tipo de carga. De Masi (2000) aposta no despertar das idéias quando existem muitos estímulos à nossa volta. E isto pode ser comprovado pelo que experimentei no momento em que ultrapassávamos um desses veículos de transporte de bovinos para abate. Insinuando sua sabedoria acerca das questões pecuárias, meu marido, nascido e criado no campo, aventou que no trânsito entre pasto e matadouro, o gado perde muito peso - o que, aliás, traz grande pesar aos produtores. Perde peso? Perguntei.

IV. DA SURPRESA À CRIATIVIDADE

Bois e vacas não se dão conta de que emagrecem. Tampouco se preocupam com a silhueta. Mas, diferentemente, seres humanos, em especial do sexo feminino, apõem em suas vidas, a aparência slim como prioridade absoluta. O método de emagrecimento dos citados animais pode ser aplicado aos humanos, cogitei. Nem preciso comprovar minha teoria, acrescentei. Comprei a carreta – a carreta para transportar gado. No entanto, a ser utilizada para transportar gente. Gente gorda, ávida por emagrecer. O trajeto a se percorrer: a serra de Petrópolis, com sua santa sinuosidade!

V. NOME DE BATISMO DO EMPREENDIMENTO

Na euforia, o dom da criação fica superdimensionado. Não tive dúvidas: SPARRODÔ LTDA. Dessa maneira, definiu-se, na sua forma legal e jurídica, o mais novo empreendimento no campo da estética.

VI. OPERACIONALIDADE

Feita a divulgação, não tardaram as inscrições. Rapidamente, lotação completa. Termos do contrato: a) corpo solto – nenhum dispositivo para contenção (mantendo os pés firmes, o movimento do tronco ocasiona perda de medida de cintura); b) três idas e vindas Belo Horizonte/Petrópolis, em ritmo contínuo; c) após a satisfação das necessidades fisiológicas 1 e 2 na moita mais próxima, um banho diário de mangueira (ó a mangueira aí, gente! - à carreta foi adaptada uma pipa d’água); d) um pé de alface (ó o alface!); e) uma garrafa de água mineral sem gás; f) uma bisnaga de filtro solar FPS 15 UVB. g) pagamento adiantado. E só. Satisfação garantida e nenhum dinheiro de volta. 

CONCLUSÃO

1. O ócio é comprovadamente fonte de criação.

2. Pela primeira leva já pôde ser constatado o sucesso irrefreável da experiência. As estreantes retornaram magérrimas, saudavelmente bronzeadas e felizes. O empreendimento vem crescendo a cada dia. Carretas e mais carretas. Não há como deter isso!

3. Mulheres permanecem em disponibilidade incondicional para experimentos que possam lhes proporcionar características de sílfides. 4. E eu estou rica. Graças ao ócio e não ao trabalho. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA De Masi, D. O Ócio Criativo, Rio de Janeiro: Sextante, 2000.

*Kátia Gomes de Matos é Psicóloga e Administradora Empresarial. K.G.B. foi o o pseudõnimo usado pela autora quando da publicação do artigo na Mystical Letters em 2008

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