domingo, 27 de maio de 2012

Rodolitos: riqueza no fundo do mar

Por Vilma Homero
Via Boletim da FAPERJ

Divulgação / Rodrigo Moura
Num projeto que vem reunindo especialistas de várias instituições nos últimos cinco anos – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) e Universidade Federal da Paraíba (UFPB) –, os pesquisadores fizeram um amplo mapeamento da plataforma continental na região de Abrolhos e chegaram a duas importantes descobertas: o fundo marinho é constituído por algas calcárias que ocupam uma área de aproximadamente 21 mil km2.


Para se ter uma ideia, é o equivalente a três vezes o Distrito Federal, o que as coloca entre as maiores  áreas marinhas de produção de carbonato de cálcio do mundo, juntamente com os recifes coralíneos da Grande Barreira de Corais da Austrália e do Caribe, como revelou o pesquisador Gilberto M. Amado Filho, do IPJBRJ e Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ. Esses resultados foram publicados na revista Plos One e receberam destaque em duas edições recentes da revista Science, nas seções "News of the week" e "Editor' s Choice".

O levantamento, que também contou com a participação de Rodrigo Moura, professor da UFRJ e coordenador da Rede Abrolhos, rede de pesquisa estruturada no âmbito do Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade (Sisbiota), trouxe à tona a importância dessas algas. Estruturas esféricas e endurecidas, que mais parecem pedras de rio, são na verdade organismos vivos e, tal como os corais, essenciais à vida marinha. São os chamados rodolitos. Porosos, cobertos de reentrâncias, os rodolitos servem de abrigo a pequenos invertebrados que, por sua vez, servem de alimento a várias espécies de peixes com importância comercial. "Essas algas são espécies engenheiras, que constroem seu próprio habitat, conferindo-lhe complexidade bem maior do que os fundos de areia e lama que dominam boa parte da plataforma continental. Fazem fotossíntese e, à semelhança do processo de biomineralização dos corais, também retiram carbono, na forma de bicarbonato, da água, produzindo o carbonato de cálcio, elemento essencial à vida no mar", explica Amado Filho, que coordena o projeto "Caracterização de formações coralíneas da zona mesofótica da plataforma continental brasileira e vias de síntese e produção de metabólitos em macroalgas marinhas". Esse carbonato de cálcio aos poucos se acumula na forma do esqueleto calcário rígido das seis espécies de algas que compõem os rodolitos. Soltos no fundo do mar, eles podem chegar a diâmetros de 25 cm e datações por radiocarbono indicam que alguns deles podem ter mais de oito mil anos.

No fundo do mar, eles se associam a outros organismos, como as macroalgas, que neles se fixam e atraem outras espécies marinhas. Em outras palavras, são algo como uma capa calcária viva, constituindo um importante habitat para diversas espécies e atraindo mais vida em torno de si. Motivo para que áreas de rodolitos já sejam bem conhecidas dos pescadores. Também por ser fonte de carbonato de cálcio, eles têm sido alvo da exploração comercial, como "recurso mineral". "São, por exemplo, usados na agricultura, como corretivo de solos", diz Moura. Os campos de rodolitos têm ainda uma outro papel importante: funcionam como corredores de conectividade entre áreas de recife, possibilitando um maior trânsito de organismos marinhos – desde larvas a peixes adultos – de um lugar a outro. Algo como um ambiente seguro para esses deslocamentos.

Mas, do mesmo modo que os corais, os rodolitos vêm sofrendo crescentes ameaças. Segundo os pesquisadores, o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera traz outras consequências além do aquecimento global. E uma delas é a acidificação, uma vez que, ao se dissolver no oceano, o CO2 reduz o pH da água, dificultando a síntese do carbonato de cálcio. "Essa acidificação é tão ou mais grave que o aquecimento global, pois implica uma profunda reestruturação dos ecossistemas marinhos", aponta Rodrigo Moura.

Descobrir a extensão da cobertura de rodolitos na região de Abrolhos – em que a maior parte está fora das áreas de proteção ambiental – trouxe também diversas implicações. "Temos agora elementos para contribuir com o planejamento de conservação de Abrolhos, a área com maior biodiversidade marinha do país e uma das mais piscosas do Nordeste", acrescenta. Refletir sobre sua importância levou a equipe de pesquisadores a considerar três medidas necessárias à sua conservação. A primeira dessas medidas seria de precaução na concessão de novas lavras para sua exploração comercial. "Eles não são uma estrutura mineral inerte, mas uma estrutura biológica ativa, fotossintetizante, que acumulam carbonato de cálcio a taxas muito lentas", explica Amado-Filho. A segunda medida seria sobre a necessidade de conservação das bacias hidrográficas e suas matas ciliares. "Os rodolitos são muito sensíveis ao acúmulo de sedimentos trazidos pelos rios, que acabam depositados no mar. Quanto mais sedimentos houver, menos rodolitos serão capazes de sobreviver, menor se torna sua área. E com eles, reduzem-se também as espécies de peixes que ali procuram alimento", continua Amado-Filho.
Porosos e cheios de reentrâncias, os rodolitos são organismos vivos, que atraem invertebrados e peixes em torno de si. Divulgação/Gilberto Amado.
Segundo o pesquisador, se não houver reversão na tendência de acidificação dos oceanos, boa parte dos rodolitos se dissolverá. Na região de Abrolhos, outros problemas cercam os rodolitos, já que apenas 1,8% do chamado Banco de Abrolhos está compreendido pelos 900 km2 do parque nacional e pelos 3,5 mil km2 da APA estadual Ponta da Baleia – Abrolhos, áreas de proteção que, embora estejam no papel, ainda não foram devidamente implementadas. Por outro lado, a região convive com a exploração de petróleo e gás, pesca, criação de camarões em áreas de manguezal, e há ainda projetos portuários planejados para implantação. "Precisamos repensar tudo isso, engajar os atores locais no debate sobre a criação de novas áreas de proteção e estabelecer limites e regras de uso para podermos continuar contando com os serviços ecossistêmicos que a região provê, gerando emprego, renda e alimento para milhares de pessoas. A degradação acarreta prejuízos incalculáveis em biodiversidade, que tendem a ocorrer antes mesmo que tenhamos tempos de estudar melhor toda essa riqueza", concluem os pesquisadores.

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