domingo, 26 de fevereiro de 2012

Álcool, a droga mais perigosa

Via Comunidade Segura

A maconha é proibida na maior parte do mundo, mas é o álcool – liberado em quase todos os países – a droga mais perigosa, segundo um estudo liderado pelo psiquiatra e neurocientista inglês David Nutt e publicado no peridódico científico The Lancet em 2010. A pesquisa analisou os danos causados por diferentes drogas lícitas e ilícitas aos seus usuários e a terceiros e concluiu que, num âmbito geral, o álcool é a droga que mais danos causa.

Segundo a pesquisa, a droga mais danosa aos seus usuários é a heroína, seguida do crack e da metanfetamina. Mas o álcool é a que mais causa males a terceiros, seguido do crack e da heroína. No ranking geral dos danos, o álcool encabeça a lista, seguido da heroína e do crack.

Nutt é chefe do Departamento de Neuropsicofarmacologia do Imperial College of London, no Reino Unido, e também comanda o Comitê Científico Independente sobre Drogas (Independent Scientific Committee on Drugs)e a Faculdade Europeia de Neuropsicofarmacologia (European College of Neuropsychopharmacology).

Sua autoridade científica, entretanto, não foi suficiente para lhe garantir o cargo de conselheiro do governo inglês sobre drogas. Há exatamente um ano, ele foi afastado do cargo por defender a manutenção da maconha na classe C de periculosidade (baixo risco) e pedir que o ecstasy fosse tirado da classe A (alto risco). Ele declarou, na época, que as pressões políticas teriam se sobreposto às evidências científicas.

O estudo publicado no The Lancet é uma atualização de uma pesquisa similar feita em 2007. Para Nutt, a avaliação apropriada dos males causados pelo abuso de drogas permite embasar políticas mais adequadas de saúde, policiamento e assistência social. Ele defende que para se ranquear os malefícios das drogas, é preciso utilizar um modelo com critérios múltiplos de análise.

Nutt e seus colegas do Comitê sobre Drogas, incluindo dois especialistas convidados, decidiram analisar 20 tipos de drogas a partir de 16 critérios – nove relacionados aos danos que as drogas produzem nos próprios usuários e sete sobre danos a outras pessoas. Os critérios receberam pesos de acordo com a sua importância e os danos das drogas foram pontuados de zero (nenhum) a 100 (valor máximo).

Os males nos próprios indivíduos foram subdivididos em três tipos – físicos, psicológicos e sociais. Os físicos incluem mortalidade específica, mortalidade relacionada, dano específico e dano relacionado. Os danos psicológicos são dependência, incapacidade mental específica e incapacidade mental relacionada. E os sociais são perda de noção de realidade e perda de relacionamentos.

Os problemas causados em outras pessoas incluem ferimentos físicos e psíquicos e uma série de questões sociais: crime, destruição do ambiente, problemas familiares, internacionais, de custos econômicos e comunitários.

No ranking geral, feito a partir das médias ponderadas dos critérios, o álcool despontou com 72 pontos. Em seguida ficaram heroína, com 55; crack (54); metanfetamina (33); cocaína (27); tabaco (26); anfetamina (23); e finalmente, em oitavo lugar, a maconha, com 20 pontos em 100. Em último lugar ficaram os cogumelos alucinógenos, com seis pontos, por interferir na capacidade mental. Idem para o LSD, que, com sete pontos, ficou em 18o lugar. O ecstasy – estopim da crise que levou à demissão de Nutt – ficou em 17o, com nove pontos. Ao contrário dos alucinógenos que o seguem no ranking, o ecstasy acumula diversos danos possíveis, mas em volumes pequenos (gráfico abaixo).


Para os usuários, as drogas mais perigosas são heroína, crack e metanfetamina, com scores parciais de 34, 37 e 32, respectivamente. Já para as outras pessoas, são mais graves o álcool, com 46 pontos, a heroína, com 21, e o crack, com 17 (gráfico abaixo).


“Os resultados mostram que a metodologia de dar pesos aos danos aumenta a diferenciação entre as drogas mais e menos perigosas. Entretanto, as conclusões pouco se relacionam com a atual classificação das drogas em vigor no Reino Unido, que não é feita unicamente com base em considerações sobre danos causados”, afirmam os autores.

Pesquisa relevante para repensar política de drogas

Para o professor de História Moderna da USP Henrique Carneiro, o estudo de Nutt comprova algo já sabido: a irracionalidade do proibicionismo das drogas sob o critério dos seus perigos e danos potenciais comparados. "Este é mais um estudo que se soma a uma imensa literatura que desmonta os pretensos fundamentos do proibicionismo do ponto de vista da medicina e demonstra a necessidade de uma revisão profunda na política global sobre drogas, retirando-as da esfera da ilicitude", defende.

De acordo com Carneiro, que é membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip), o que ocorre é justamente a liberação das mais tóxicas e perigosas e a perseguição às menos daninhas, o que mostra não haver fundamento baseado na saúde pública para tal discriminação.

Carneiro dá como exemplo o ecstasy, cujos efeitos tendem a não potencializar violência e agressividade em festas, ao contrário do álcool, o que deveria levá-lo a ser uma alternativa de lazer mais segura do que o uso das bebidas.

Também membro do Neip, o antropólogo Mauricio Fiore considera a pesquisa muito relevante para se pensar nas políticas públicas sobre drogas. Para ele, um dos maiores problemas do debate político atual é a sobrevalorização dos reais danos das substâncias ilícitas e da subestimação dos problemas associados às drogas lícitas, principalmente o álcool. “Os pesquisadores listaram um útil conjunto de danos que com certeza se disseminará e, além disso, foram muito claros a respeito da metodologia e de alguns de seus limites”, afirma.

Segundo Fiore, que é pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), um dos limites é o fato de os critérios só se basearem nos problemas reais e não nos potenciais e também não levarem em conta aspectos positivos que o consumo dessas substâncias possam ter.

O antropólogo elogia a metodologia do estudo de pesar simultaneamente e de maneira controlada os danos potenciais das substâncias, mas ressalva que a pontuação de cada substância foi atribuída pelos próprios especialistas e não a partir de dados primários. “É uma opção que trouxe ganhos e tornou a análise viável, mas também mais subjetiva. O intuito foi minimizar as distorções, ainda eu ache que elas permaneçam”, afirma Fiore, que é doutorando na Universidade Federal de Campinas (Unicamp).

Autor de “Uso de ‘drogas’: controvérsias médicas e debate público” (Mercado de Letras/Fapesp, 2006), ele considera a escolha dos danos e dos critérios completa. No entanto, observa que os especialistas atribuíram os pesos considerando a abrangência atual do consumo. “Por exemplo, o álcool vence de longe porque seus danos são muito prevalentes. Mas, se tomarmos a condição de acidentes de carro, não há como dizer que dirigir sob efeitos de LSD seja potencialmente menos danoso que alcoolizado. É claro que, num contexto no qual o LSD fosse legalizado, talvez houvesse, por uma série de motivos, menor chance de alguém dirigir sob seu efeito, mas isso está no terreno da suposição”, explica.

3 comentários:

Hugo Matoso disse...

A mídia e seu poder de manipular, um verdadeiro monopólio. Tudo girando em torno do dinheiro, a Forbes de 2011 mostrou que 3 dos 10 mais ricos brasileiros eram sócios ou donos de empresas de bebida alcoílica, como a Ambeve muito conhecida.

Antônio Arapiraca disse...

Muito boa sua observação Hugo. O que vemos e uma desinformação muito grande, sobretudo entre a juventude, sobre os mais diversoso temas. Nessa questão do uso de substâncias a mídia sempre faz o jogo dos grupos econômicos que podem pagar mais para dizer que seu produto faz bem e deve ser consumido.

Luís Angelo disse...

Concordo completamente contigo..que o álcool além de ser a mais perigosa por ser licita é facilitadora para o uso de outras drogas.
Já escrevi sobre isto no meu blog também e outros assuntos relacionados.
http://teliganomovimento.blogspot.com.br/

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