sábado, 27 de agosto de 2011

Um médico vermelho

Por Cristovam Buarque*

A primeira vez que escutei falar em Aloysio Campos da Paz, em 1980, ele foi tratado como um diretor autoritário e privatista da saúde. Era a opinião de profissionais em greve no antigo Hospital Sarah, que estavam contra o sistema que ele implantava, elevando os salários, mas exigindo dedicação exclusiva, avaliando competência e organizando disciplina de seu corpo de funcionários.

Essa visão mostra como os conceitos de "democracia" e "público" foram apropriados pela elite brasileira, por meio do patrimonialismo latifundiário, que se transformou em empresarial, convivendo com o patrimonialismo trabalhista. Isso resume como a República foi sendo anulada pelo corporativismo.

Trinta anos depois, pode-se considerar que, naquela disputa, Campos da Paz estava mais próximo do doente. Entre o estatal e o público, entre a visão estatista e a visão publicista, entre os que são servidores do Estado e os que devem ser servidos pelo Estado, ele ficou com o público, ao lado do doente.

Na área da saúde, Campos da Paz faz parte de um grupo de pessoas sintonizadas com o interesse público à frente dos interesses privados. Sem respeito e boa remuneração fica impossível ter bons profissionais da saúde, mas o respeito precisa ser mútuo - do povo com o médico, pagando-lhe salário digno, e do médico com o povo, transformando-o com carinho e eficiência.

Bem antes desse debate, entre público e estatal, que só agora se amplia, ele trouxe a ideia de que o serviço de saúde estatal pode não ser sinônimo de serviço público de saúde; que esse serviço estatal só se justifica se servir ao público. Defendeu e argumentou que o serviço estatal existe para cuidar dos doentes, pagando bem aos médicos e demais servidores, respeitando-os como servidores, mas exigindo deles o compromisso absoluto com a saúde. No livro "Percorrendo memórias", Editora Sarah Letras, Campos da Paz descreve o momento decisivo em que, coerentemente, abandona seu consultório privado e opta, ainda jovem, pelo exercício exclusivamente na saúde pública.

Depois ele radicaliza, corajosa e corretamente, ao defender que não bastam pequenos ajustes no SUS, nem mais recursos, mas uma revolução no sistema de saúde, com publicização do sistema, mesmo que não seja necessariamente estatal.

A visão que ele tinha, e ainda tem, está refletida em entrevista à revista "Veja", de janeiro de 1996, na qual diz: "A lógica do sistema (da saúde brasileira) induz criar a doença e a lucrar com ela, não a utopia médica de acabar com a doença." No sistema atual, mesmo com o SUS, a doença tem sido motivo para viabilizar o lucro das indústrias farmacêuticas e de equipamentos, bem como o salário de servidores, mais do que para atender os doentes.

Ao longo dos anos, fui convivendo e percebendo cada vez mais seu vanguardismo e admirando crescentemente sua firmeza de princípios e seus compromissos sociais.

O livro "Percorrendo memórias" mostra a trajetória desse grande médico e cidadão, desde sua origem de descendente de médicos, comunistas e militares. Com simplicidade, ele descreve como cresceu e foi educado; e lembra o mundo ao redor que testemunhou. São as memórias do Brasil, entre Rio de Janeiro, Brasília, e a Inglaterra, no estimulante período entre 1950 e 2010.

O título do livro mostra a modéstia do autor, ao chamá-lo de memória - dos outros, do mundo - e não de autobiografia que sua vida justifica perfeitamente.

Em sua vida, ele viu uma cidade nascer e crescer até o tamanho de uma grande metrópole; aprendeu medicina e o compromisso social ao qual deveria servir; construiu o desenvolvimento científico, tecnológico e social da Rede Sarah; foi pioneiro na criação de técnicas, tanto em equipamentos quanto em métodos de tratamento e de gestão; fez descobertas científicas hoje reconhecidas internacionalmente.

Raras pessoas, no mundo, tiveram a chance e a competência para viver e fazer tanto quanto ele. Talvez nenhum outro possa ter sido testemunha e ator de fatos como esses. Ainda mais raros são aqueles capazes de escrever de maneira tão viva o testemunho do mundo ao seu redor, pintando o processo histórico do país; e, com pinceladas certeiras, os retratos de personagens que vão se sucedendo, na família, no ambiente profissional e na vida política.

Essas memórias merecem ser lidas por cada brasileiro, cada médico e, sobretudo, por aqueles que antes desconfiavam de Campos da Paz, por verem nele um privatista, no lugar de um radical defensor da saúde pública, um médico vermelho.

*Cristovam Buarque é senador (PDT-DF).

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