sábado, 2 de julho de 2011

O caboclo no desfile de 2 de julho é o símbolo da mistura brasileira

Por Débora M. Alcântara*
De Salvador

Sobre uma carreta tomada dos lusitanos, durante o combate separatista de Pirajá (8 de novembro de 1822), um velho mestiço descendente de indígenas ostentava a vitória sobre o domínio monárquico português. A alegoria foi enfeitada com ramos de café, fumo e cana, e empurrada por compatriotas ao som de pandeiros e violas, da Lapinha ao Terreiro de Jesus. O episódio, que marcou o festejo de um ano de Independência da Bahia, em 2 de julho de 1824, foi o ensaio para a construção do emblema que resiste até hoje, sob sol e chuva, ressignificado pelas diversas identidades baianas ao longo da história.

Com a provável autoria de Manoel Inácio da Costa, o caboclo alegórico desfilou pela primeira vez em 1826. “Esse belo trabalho de 1,65 metro, todo talhado em cedro, representa a nacionalidade brasileira que esmaga o português sob seus pés, representado pelo dragão”, explica o professor de artes e especialista em restauração, José Dirson Argolo. A imagem do dragão morto aos pés indígenas, segundo a historiadora Lina Aras, é, de fato, “uma representação histórica de vitória do oprimido frente o opressor”.

“O movimento de Independência na Bahia – diz o historiador Ubiratan Castro – teve um efeito interessante: ele produziu, como imagem  alternativa à  do colonizador, a imagem do autóctone, o herói místico brasileiro”. Na mentalidade dos fidalgos portugueses, segundo  Castro,todos os brasileiros eram mestiços, e os portugueses, puros. “Existia um deboche muito grande dos europeus contra os chamados mestiços, considerados incapazes de assumir postos de poder”, afirma. Representando a fusão dos povos dominados, o índio e o negro, o caboclo, segundo o historiador, é o símbolo de afirmação da alteridade brasileira. Por isso, de acordo com Aras, ele passou a ser uma afronta aos fidalgos portugueses e os descendentes que encarnavam os preceitos católicos como símbolo de distinção de classe. “Daí a recusadainclusãodocaboclono desfile e a tentativa de sua substituição por outra representação”, destaca.

A cabocla 

Foi em 1846 que a cabocla se incorporou ao festejo do 2 de Julho. Pode-se dizer que a obra foi um tiro que saiu pela culatra. Depois de ter combatido a cabanagem, no Pará, e os farroupilhas no Rio Grande so Sul, o militar Francisco José de Sousa Soares de Andrea veio para a Bahia presidiar a província. Sentindo-se afrontado com a figura do caboclo, o comandante das armas quis extirpá-lo. Para substituí-lo, solicitou ao artista Domingos Pereira Baião a feitura de uma figura feminina em analogia a Catharina Paraguaçu, a índia tupinambá da Bahia, que ganhou certidão de batismo do “branco” e se casou com o português Diogo Álvares, o Caramuru. No entanto, a intenção de Soares de Andrea em arrefecer a simbologia do caboclo com a construção mítica da matriarca da "primeira família brasileira" não se concretizou. “O caboclo há de sair, custe o que custar, ainda que eu morra”, bradou o major Umburanas, na negociação com o governador. “E ele foi aclamado pelo povo, claro”, conta Dirson Argolo.

*Débora Menezes Alcântara é Jornalista e editora do fóton Blog.

 fonte: A Tarde

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