domingo, 12 de junho de 2011

Breu - Parte II

Por Rafael Mendes*
Do Rio de Janeiro
 
Se não soubesse que isto é, por questões geológicas, muito pouco provável , teria certeza de que, assim que pus meu prato de gororoba de batata sobre a mesinha de cabeceira, começou um terremoto. Que outro motivo haveria para todo o quarto tremer a ponto do meu prato e do meu copo d’água caírem no chão? Um terremoto explicaria isso. Porém, não explicaria o clarão que se expande rapidamente aqui dentro! O que tinha dentro desse “pirê”? Mas que diabo! Enfermei//
Breu.

***

– Aaai, minha cabeça!
– Me desculpe, primo! Não tinha lhe visto aí! Mamãe disse que você estava na capela… Está tudo bem?
– Claro que está tudo bem! Eu só// Lucas? É você mesmo?
– Ih, primo… Não vá me dizer que uma bolada na cabeça te deixou lelé da cuca? Hahaha!
Lucas… Meu primo Lucas morreu e já faz muitos anos! Definhou tanto e tão cedo com a doença que só o reconheço neste garoto diante de mim com muito esforço de uma boa memória… Mas é o próprio! Jovem e robusto!
– Lucas! Mas será possível? Você está tão… Vivo! E tão moço!
– Tanto quanto você! Está tudo bem mesmo, primo?
– Como pode? Você está do mesmo jeito que era quando nós brincávamos juntos no sítio do vovô, quando ainda existia o casarão e…
– Está falando desse casarão aí atrás?
O casarão! O sítio! Eu estou lá! Digo, aqui! Exatamente como eu me lembrava… O casarão, a horta, o laguinho, a capela, o campinho de terra batida… Tudo do mesmo jeitinho… Como eu vim parar aqui? Quando é aqui??
– Primo, acho melhor voltar pra casa… Você não está batendo muito bem não…
– Lucas! Quantos anos você tem mesmo…?
– Os mesmos que você! Não se lembra que eu faço aniversário uma semana depois de você?
– Sim, sim! Mas com quantos anos você está hoje?
– Não lembra sua própria idade, primo? O caso é sério mesmo, hein…
– Você pode dizer?
– Doze, primo.
– Está dizendo que eu tenho doze anos novamente?? Nossa! E eu sinto mesmo como se tivesse doze anos! É! Haha! Vamos, primo! Corrida até o lago! Quem chegar por último é//
– Mulher do padre! Haha!
Miserável! Ele sempre fazia isso…
– Ei! Você não me esperou terminaaaar!
– É por isso que você sempre perde! Haha!
Que descarado! Pois vai ver só… Vou pegar ele! Vou correr e vou pegar! E quando pegar… Ah, ele vai ver só o que// Ei! Eu estou correndo?? Jesus! Eu não sei o que é correr há pelo menos uns vinte anos! Agora eu estou voando novamente por esse sitiozão todo de novo! O vento passa pelos meus cabelos com uma velocidade que só tem feito ultimamente quando vem temporal ou o motorista do ônibus tem pressa… Minhas pernas e braços se movem tão rápido que meus pensamentos não acompanham… Meu Deus, não existe sensação melhor nesse mundo! É como se eu estivesse… Vivo!
– Viu só? Perdeu novamente! Haha!
– Tudo bem… Eu não me importo! Nossa, já estou suando…
Me abaixo para lavar o rosto no lago e me deparo com uma imagem horripilante: Eu mesmo. Com meus 61 anos. Tomo um susto que me atira pra trás, sentado á beira do lago.
– Que foi primo? Viu fantasma aí? Haha…
Instintivamente, escondo o rosto para que ele não perceba as minhas rugas delatoras, mas ele logo afasta minhas mãos, preocupado.
– O que você tem? Já ficou doido de novo, é?
– Você… Não está vendo?
– Vendo o quê?
– É… No lago!
– O que você viu no lago? Venha cá! Mostre.
Hesitante, me aproximo do lago. Ele não vê a verdade em meu rosto. Nem eu mesmo a sinto ao tocar de minhas mãos. Não vejo a idade pesar sequer sobre estes braços ou estas mãos. Vejo-a pesar, porém, sobre o flutuante reflexo no lago. Será que ele também pode ver…?
– Primo! Você está vendo o que eu estou vendo?
– Eu? Não! O quê? O que você viu? Não tem nada lá não, Lucas!
– Tem sim, olha aqui, chega perto!
– Não tem n//
Breu. A escuridão do fundo do lago. O frio glacial da água que me engloba, engolfa, afoga… Quero subir! Mas… Breu! Onde é pra cima, onde é pra baixo?? Não sei bem onde estou… E agora que me uni ao meu eu que vivia na água, nem sei bem quem sou… O velho da água ou o moço da terra? Uma fusão, um homem de lama sem passado ou futuro vivendo suspenso no limbo?

*Rafael Mendes é estudante de Letras – português/literaturas (e italiano) da UFRJ e edita o blog Ode ou Ódio.

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