sábado, 14 de maio de 2011

PALEOARTE: a arte de reconstituir seres e ambientes extintos

Por Aline Ghilardi*
De São Carlos - SP

A reconstituição da aparência em vida de espécies e ambientes extintos é um processo interdisciplinar, que combina a pesquisa paleontológica com atividades como a ilustração científica, a modelagem 3D ou ainda a animação computacional. Os resultados são fáceis de identificar: eles recheiam os livros de Paleontologia, dão vida aos museus e encantam os nossos olhos nos documentários.


Mas como tudo isso é feito? No que se baseia? Deve ser considerado como arte ou ciência? Qual a importância fundamental em se recriar visualmente organismos extintos?

Tyrannosaurus rex. Técnica: Modelagem digital, por Rodolfo Nogueira.

A reconstituição paleontológica envolve uma intrincada técnica que requer do profissional que trabalha nessa área uma poderosa capacidade de observação somada à destreza na interpretação e síntese de dados. Os resultados, por sua vez, só serão transmitidos de forma bem sucedida se a linguagem artística for dominada com competência. Nessa perspectiva, o paleoartista precisa ser versátil. É o braço direito do paleontólogo e precisa compreender tanto a linguagem do cientista, quanto a linguagem da arte.

Para reconstruir um organismo ou ambiente pretérito, não basta somente registrar detalhes anatômicos de um animal ou pormenores isolados de um contexto ambiental. Para o trabalho de reconstituição ser rico, ele precisa reunir dados de todo o conjunto do animal e do meio. O estudo por trás de uma reconstituição, por conseguinte, é extenso.

No caso de um organismo, sua forma, postura e contexto devem ser considerados para assim se obter uma imagem próxima da que seria a real. Já no caso de um ambiente, tanto os seus aspectos físicos, quanto os biológicos e também suas interrelações são fundamentais.

Para produzir algo com qualidade, o paleoartista precisa ter experiência ao captar essa série de informações, e então, ter habilidade suficiente para estabelecer em sua mente uma imagem sintética utilizando todos esses dados.

Há uma infinidade de características de uma criatura que combinadas podem fornecer pistas sobre como ela se parecia, comportava e/ou relacionava com o ambiente. Para interpretar isso como um detetive, o paleontólogo e o profissional da paleoarte têm como subsídios diferentes ferramentas da Ciência, entre as quais a anatomia comparada, a biomecânica, a fisiologia, a filogenia, até o que chamamos de princípio do atualismo.

Quais pistas o Paleoartista têm? Que ferramentas o ajudam a interpretá-las? Como elas funcionam?

Vamos continuar com o exemplo da reconstituição de um organismo, e vamos utilizar agora um vertebrado (animais com um esqueleto envolvendo espinha dorsal e crânio, desde um peixe até um mamífero) como modelo. Podem-se extrair diversas informações somente observando o esqueleto do animal. E mesmo que este esteja incompleto, utilizando a anatomia comparada é possível reconstituir as partes que lhe faltam e dessa forma ter uma ideia da aparência geral do organismo com relativa precisão. O princípio básico utilizado para isso é o de que existe um padrão comum na estrutura dos vertebrados, assim como isto se reflete de diferentes formas em toda árvore da vida.

Baurusuchus pachecoi:crocodilomorfo terrestre do Cretáceo brasileiro. Técnica: nanquim combinado a trabalho digital (Photoshop), por Felipe Alves Elias.

Estudos das peculiaridades anatômicas do esqueleto vêm ainda evidenciar detalhes da postura e da locomoção dos organismos, fundamentando-se para isso em restrições físicas e princípios biomecânicos. Já a reconstituição dos músculos é feita a partir das cicatrizes de inserção destes nos ossos, e o resultado final dá o volume do animal.

Considerando-se as relações filogenéticas (de parentesco), com base na taxonomia (classificação) do organismo, podem-se obter ainda pistas sobre a aparência, a fisiologia e o comportamento. Esses três podem também serem recuperados do próprio registro fóssil, que excepcionalmente pode preservar detalhes tais quais o contorno ou até mesmo a estrutura de tecidos moles, evidências de pelos ou penas, ou ainda flagrantes de interação espantosos, como de alimentação, reprodução ou mesmo combate.

Odontochelys semitestacea: tartaruga primitiva do Período Triássico. Técnica: Nanquim, por Aline Ghilardi.

Há por sua vez, também, o método de comparação com análogos modernos (ou o chamado princípio do atualismo), que parte do pressuposto de que é possível inferir a presença de alguns tipos de caracteres e comportamentos nos organismos extintos por comparação com parentes viventes ou mesmo animais não relacionados, mas que tenham função ecológica semelhante.

Não podemos deixar de lembrar que a consideração do contexto geológico e de toda a assembleia fossilífera associada (os outros fósseis encontrados no mesmo contexto) também é muito importante. Ambos fornecem dicas preciosas sobre o paleoambiente do organismo em questão, como o clima, a vegetação, a estrutura trófica, sazonalidades, dentre outros.

Araripemys : Tartaruga extinta do Cretáceo do nordeste brasileiro. Técnica: Aquarela, por Aline Ghilardi.
Como se pode notar, a metodologia envolvida no estudo da reconstituição de um animal é bem fundamentada e permite chegar a uma imagem muito próxima do que ele teria sido. Cabe ressaltar, todavia, que alguns detalhes serão sempre incógnitas. Dentre estes, talvez o mais controverso seja o com relação às cores dos organismos pretéritos. Normalmente, não é possível inferir a cor de um animal a partir de seu fóssil. Temos de partir do princípio filogenético ou da comparação com equivalentes atuais. O que, de qualquer forma, é sempre frustrante.

Pesquisas recentes, no entanto, lançaram esperanças sobre essa questão, pelo menos quanto à coloração de penas fossilizadas. Seria possível identificar alguns padrões de cores em penas fósseis observando o formato de algumas estruturas microscópicas (melanócitos) preservadas nas mesmas. Isto foi feito com dinossauros emplumados. A possibilidade seria fabulosa, mas devemos aguardar melhores conclusões. 

Diferentes objetivos, diferentes resultados

A concepção artística de um ser vivo e/ou ambiente extinto pode ter diferentes finalidades: a puramente acadêmica (ferramenta nas pesquisas científicas) ou para divulgação, tanto didática (para construir um conceito sobre determinado tema), quanto para o entretenimento (em filmes, desenhos, revistas, brinquedos etc.). Colocado dessa forma, não é difícil perceber que o objetivo final de uma reconstrução paleontológica virá a interferir significativamente no seu rigor científico. Sendo assim, é necessário rastrear as fontes e os propósitos com criticidade, assim como fazemos com qualquer outro material de divulgação.

Reconstituição Paleontológica: Perspectivas e conclusões 

A tendência da reconstituição paleontológica na última década tem sido a digitalização da arte. Nos últimos anos esse crescimento foi ainda mais significativo com o aperfeiçoamento de algumas ferramentas computacionais, que deram uma perspectiva inovadora a esse campo. Agora os dados paleontológicos podem ser inseridos com precisão nos programas de edição artística e estes, por sua vez, tornaram-se muito mais versáteis, detalhados e capazes de trabalhar com enorme quantidade de informação ao mesmo tempo. 

Mamute (Mammuthus imperator). Técnica: nanquim combinado a trabalho digital (Photoshop), por Felipe Alves Elias.
Uma vantagem é que a reconstituição digital pode ser feita diretamente do fóssil e isto se deve à expansão das tecnologias de escaneamento e composição de imagens de estruturas tridimensionais (CAT Scan). Com imagens capturadas em CAT Scan, distorções nos fósseis dadas pelo processo de fossilização podem ser corrigidas. Além disso, essas imagens podem ser testadas em softwares de engenharia para determinar, por exemplo, pontos de estresse e tensão no esqueleto, dando subsídios fantásticos e muito mais robustos para os estudos de biomecânica na reconstrução da postura, locomoção e outros comportamentos de animais extintos.

Tyrannosaurus rex. Técnica: Modelagem digital, por Rodolfo Nogueira.
Outras vantagens envolvem a possibilidade de manipulação tridimensional dos objetos e a inserção de movimento. Essa interatividade não é só útil e didática, mas cativa facilmente o público. A partir daí, basta um pulo para as reconstruções audiovisuais fabulosas, como as de documentários, séries e filmes, que com o passar dos anos têm sua qualidade acrescida exponencialmente.

Apesar de todo potencial da arte digital, as recontruções tradicionais nunca irão desaparecer. O desenho, a pintura e a escultura são valorizados por todo seu aspecto artesanal, além de serem modalidades de artes ainda mais acessíveis. 

A ilustração paleontológica, por exemplo - que entendemos pela representação gráfica por meio do desenho de materiais fósseis com o objetivo de ilustrar as publicações científicas -, mesmo com o advento da fotografia, não caiu em desuso. Ela era a única forma de ilustrar os materiais descritos em artigos antigos, mas hoje ainda é popular. Ela é utilizada inclusive em associação a fotografias. A ilustração paleontológica captura alguns aspectos às vezes difíceis de serem percebidos em retratos, e da mesma forma isso acontece entre as artes tradicionais e a arte digital.

Ilustração paleontológica – Fragmento fóssil de mandíbula de crocodilomorfo extinto. Técnica: Pontilhismo em nanquim, por Aline Ghilardi.
A importância das reconstituições paleontológicas, estejam elas no formato de imagens impressas, esculturas ou material audiovisual, é o seu papel fundamental na divulgação da Paleontologia. A arte, aqui, vem mediar e facilitar a conexão entre o pesquisador e o público. O grande benefício está na sua competência em traduzir a complexidade dos estudos científicos para uma linguagem sintética, fácil, atraente e plural. Ela abre uma extraordinária e convidativa janela para o passado.

Devemos lembrar, no entanto, que apesar de envolver ferramentas artísticas, o objetivo básico da reconstituição paleontológica não é apreciativo, ou seja, não é ser somente agradável esteticamente, mas sim integrar-se à pesquisa científica. Nessa perspectiva, ela deve ser considerada uma ferramenta da Ciência e não interpretada puramente como arte. É importante saber que por trás do trabalho de reconstituição existe um vasto estudo e que cada traço tem uma observação detalhada como fundamento.

De qualquer forma, não interessa a forma de expressão. Se a arte aplicada à Ciência continua cumprindo seu objetivo de auxiliar a pesquisa e disseminar conhecimento, então, missão cumprida!

*Aline Ghilardi é aluna do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da UFSCar e colaboradora do blog "Colecionadores de ossos".
 
Conheça outros trabalhos dos Ilustradores apresentados neste artigo:
 
 
 
 
fonte: Click Ciência

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