quarta-feira, 13 de abril de 2011

Perspectivas nucleares após desastre em Fukushima

Da The Economist
O desastre na Usina Nuclear de Fukushima Daiichi no nordeste do Japão chamou mais uma vez a atenção sobre a segurança da energia nuclear. O desastre irá criar reações em diferentes graus, de critérios mais severos de segurança (que subirão os preços de construção e diminuirão a aprovação de usinas) até mais resistência política e pública para o uso da energia nuclear. 


Mesmo assim, a energia nuclear aparenta continuar como uma parte significante do total global de produção energética, uma vez que as alternativas com maior viabilidade fazem com que a dependência em relação a combustíveis fósseis poluentes cresça. A China, em particular, está preparada para expandir sua indústria nuclear de forma massiva na próxima década. Ainda que a escala desses planos não pareça realista, em termos do conjunto global, o crescimento do poder nuclear na China irá, parcial ou integralmente, equivaler aos fechamentos e suspensões de usinas nos outros lugares.
Antes de acontecer o desastre japonês, a energia nuclear parecia prestes a um renascimento cauteloso. O setor é responsável por perto de 14% da geração global de energia. Suas principais vantagens são que esse tipo de usina possibilita uma energia mais barata quando estão construídas e funcionando (tirando os altos custos iniciais) e não produz emissões de carbono. A energia nuclear é atraente também para países altamente dependentes da importação de hidrocarbonetos, e para aqueles com demanda de potência com crescimento acelerado e que não são inteiramente abastecidas com a energia fóssil, apenas. Japão e Coreia do Sul, ambas consumidores entusiastas da energia nuclear, caíram na primeira categoria. Antes do desastre de 11 de março invalidar os reatores de Fukushima Daiichi e forçar o desligamento de tantos outros, o Japão tinha 54 usinas operáveis de acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), atrás somente dos Estados Unidos (com 104) e da França, com 58. Esse tipo de energia foi responsável por 27% do total da energia gerada pelo Japão em 2010. A Coreia do Sul tem menos usinas em operação – 21 no total – mas isso gerou 33% da eletricidade do país ano passado.
A segunda categoria de países para os quais a energia nuclear manteve sua atratividade é daqueles de crescimento e desenvolvimento acelerado como China e Índia. Em ambos, a combinação de fatores, como uma população massiva, crescimento econômico acelerado e uma grande dependência em carvão, fez com que as autoridades encarassem a energia nuclear como uma maneira de elevar a segurança energética e combater a poluição do ar. O carvão continua sendo o principal combustível em ambos os países, mas reduzir sua parcela na geração de potência surgiu como um elemento-chave para políticas energéticas. Ambos os países tem planos ambiciosos para construção de usinas nas próximas décadas.
Por alguns cálculos, a China deve ter sua capacidade de geração de energia nuclear expandida para 70 gigawats (gw) em 2020, um crescimento de sete vezes da capacidade atual, e para monstruosos 400 gw em 2050. Outros 27 reatores estão em construção de acordo com dados da AIEA, e, perto de 2020, o país deve ter 75 reatores operando, número bastante superior em relação aos 13 atuais. A Índia, enquanto isso, planeja crescimento de 4,6 gw em 2009 para 40 gw em 2030. O capital político que o governo de Manmohan Singh, primeiro ministro indiano, investiu ao assegurar pacto de cooperação com os EUA em 2008, sublinha a determinação do governo em desenvolver o setor nuclear. A Índia já tem 20 reatores nucleares em operação e o acordo (que abre caminho para o crescimento de negócios atômicos com outros países aprovados) possibilita o acesso da Índia a tecnologias e materiais indispensáveis para seus planos de expansão.
Saída global
O que exatamente os recentes eventos no Japão significarão para a indústria global permanece sem clareza. O esperado era que aumentasse a visibilidade e foco na questão da segurança, mas no mundo em desenvolvimento em particular a necessidade causada pela crescente demanda de energia ultimamente parece superar tais preocupações. A China, por exemplo, foi rápida em fazer simbólicas manifestações sobre a sua necessidade de se aproximar devagar e cuidadosamente da aprovação e construção de suas estações nucleares. The Economist acredita que isso não altera a, acima de tudo expansiva, política chinesa. Um comunicado oficial do Conselho de Eletricidade Chinês anunciou no final de março que a meta de 2020 será abaixada em 10 gw. Como a China irá batalhar para alcançar a meta de qualquer maneira, isso não fará muita diferença. As principais dificuldades da expansão nuclear chinesa são relativas à capacidade técnica, assim como aumentar as reservas de urânio, encontrar engenheiros competentes suficientes e simplesmente administrar um número tão alto de projetos complexos. Os problemas no Japão acabaram fornecendo às autoridades chinesas uma justificativa conveniente para abaixar suas expectativas para um nível mais atingível.
Em outras partes do mundo, o impacto do incidente de Fukushima Daiichi nas perspectivas da indústria nuclear parecem estar misturados. O Japão está, seguramente, na posição mais difícil. Isso não só porque o desastre desligou usinas térmicas e nucleares que significavam uma porcentagem grande ta capacidade de geração total. Também foi porque as opções de energia não nuclear são muito limitadas. A habilidade japonesa de produzir sua própria energia será muito diminuída na ausência da produção atômica. Ironicamente, a crise em Fukushima Daiichi pode dificultar politicamente a aprovação para novos reatores que o país precisa, agora mais do que nunca. Maior importação de carvão e óleo, em particular, será necessária para acertar a questão energética até que a situação nuclear se torne mais clara.
A maioria dos grandes usuários da energia nuclear – Estados Unidos, França, Rússia e Reino Unido – estão se agarrando, de diferentes maneiras, com o mesmo problema essencial de possuir reatores velhos que precisam ser substituídos. A extensão de quais precauções com segurança representarão um obstáculo para o processo de melhoramento parece variar. A França anunciou uma revisão da segurança, mas o país seguramente está muito comprometido com a energia nuclear, que representa 77% da geração, para mudar de curso dramaticamente. Também há um consenso antigo de todos partidos políticos em apoiar a energia nuclear. A crise japonesa pode até mesmo ter um efeito de consolidação para a indústria nuclear francesa, uma vez que mais compradores se disporão a pagar mais pela última geração de reatores, desenhada com mais acessórios de segurança. A Rússia, da mesma forma, parece pouco perturbada pelos eventos de Fukushima. Ela acaba de anunciar um acordo de US$ 9 bilhões para construir uma usina nova em Belarus e permanece como um destacado apoiador da energia nuclear. A própria Rússia planeja construir pelo menos 14 novas usinas nos próximos 20 anos. Pode parecer contraditório, dadas as grandes reservas de gás e petróleo que o país possui, mas o crescimento da participação da energia nuclear no total da eletricidade de 16% para 20% irá livrar o país para exportar mais combustíveis fósseis.
A oposição à geração nuclear de energia irá, de toda forma, crescer em muitos países, sobretudo no Oeste. Campanhas anti-nucleares utilizaram o incidente de Fukushima Daiichi como ilustração dos perigos da energia nuclear. A Alemanha, que possui um movimento ambiental forte, respondeu ao desastre no Japão suspendendo prontamente a operação de sete reatores. A Alemanha está tentando tornar-se mais aberta à energia nuclear novamente, mas planos para estender a vida operacional dos reatores mais velhos estão estagnados. Isso suscita questões sobre como a habilidade futura do país para alcançar as metas da União Européia de emissão de carbono – recentemente negociadas com grande esforço – e por extensão a credibilidade de toda estrutura de emissões da UE.
Atritos naturais também serão fatores-chave. De acordo com cálculos da The Economist, a Alemanha e o Reino Unido são os dois países que verão o maior declínio no número de reatores nucleares entre agora e 2020, incluindo a desativação de reatores mais velhos. Em 2023, apenas um entre os 19 reatores do Reino Unido existentes deverá estar funcionando. O último governo trabalhador da Inglaterra aprovou uma nova geração de usinas nucleares, mas ninguém sabe se politicamente será viável seguir com esse plano. O governo dos Estados Unidos, da mesma forma, sob a presidência de Barack Obama, se tornou apoiador da energia nuclear como forma alternativa dos combustíveis fósseis. Mas assim como na Inglaterra, a construção das usinas ocorreu há muitas décadas e há muitos anos não ocorre essencialmente nada de novo. Isso reflete tanto o prolongado processo de aprovação e (relativa) a dificuldade em encontrar financiamento seguro para projetos nucleares. Não menos importante, com mais de 100 reatores que representam 30% da energia nuclear gerada em 2010, o Estados Unidos permanece como o maior protagonista da indústria.
Rebalanceando
A resistência pública e política para a construção de novas usinas, ou a extensão das licenças de operação das usinas existentes, se prova significantemente forte como um resultado dos recentes eventos no Japão e, pelos nosso cálculos, o rebalanceamento parcial da capacidade nuclear do mundo em relação aos países em desenvolvimento que já era esperado, deve acelerar. Em 2010, segundo nossas estimativas, China e Índia juntas significaram 3,5% da geração de energia nuclear. Em nossas mais recentes projeções, esse valor pode subir para 13,6% em 2020.
Em geral, preocupações intensas sobre a segurança nuclear parecem ser deixadas para a revisão de estruturas reguladoras e no interesse crescente por outras fontes. Ambos são problemáticos. Regras de segurança nuclear mais rígidas – necessárias em muitos casos que enfrentam pouca transparência na regulação e fraca separação entre os reguladores e industriais – se somam aos altos custos iniciais e no longo tempo envolvido na construção de novas usinas. Isso pode enfraquecer a viabilidade econômica da energia nuclear. As alternativas incluem um melhor uso do gás natural, combustíveis fósseis não convencionais e renováveis. Mas o gás, ainda que mais barato e abundante do que o carvão e o petróleo, pode significar problemas em termos de emissão de carbono se ele substituir toda geração nuclear. O interesse em renováveis parece crescer, mas há limites para sua escalada. A não ser que essa imagem mude dramaticamente, qualquer abandono da energia nuclear irá criar mais problemas que soluções.
Tradução via Carta Capital

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