quinta-feira, 7 de abril de 2011

Damasco em Damasco

Por Joana Chamusca Chagas*
Via Terra Magazine


Cheguei a Damasco às 3h da manhã. Pelos corredores que me conduziam do avião ao balcão da imigração tudo estava escrito em árabe, só em árabe. Deu aquele frio na barriga. Na verdade, sempre dá, cada vez que passo por balcões de imigração. Mas dessa vez o frio foi mais frio.

O motorista do albergue, que deveria estar me esperando, não estava. Restou aventurar-me a tomar um taxi. O nome e o endereço do albergue inauguravam o meu novo caderninho de viagem. Mas o motorista, que só falava árabe, não sabia nem que rua era essa, nem que albergue era esse. E me perguntava "qual o nome do hotel?" e lhe respondia "Damascus Hostel" e me dizia "sim, Damasco, Síria, mas qual é o nome do hotel?". Desespero. E o frio na barriga ficando gelado. Mas entre seu árabe incompreensível e o meu capenga, conseguimos nos fazer entender: era para a cidade antiga que deveríamos ir.

No silêncio cômodo que seguiu a angústia da comunicação difícil, minha cabeça pesou para o lado, e meus olhos resistiram ao cansaço buscando ver através da noite escura. Quase nada. Alguns pinheiros, pedras, poeira. Até que, de repente, uma enorme muralha de pedra, a porta da cidade antiga, a rua de paralelepípedo, as casas penduradas. Pela madrugada, saí perguntando a quem via na rua, na esperança de encontrar não só quem falasse inglês (ou francês, estava valendo também), como também quem soubesse que albergue era esse. Encontrei Garu, dono de uma loja de bebidas (um dos poucos estabelecimentos abertos a essa hora), um querido que falava inglês e conhecia cada canto da cidade antiga ("eu cresci aqui"). Mas esse tal de Damascus Hostel, ele não conhecia não. Ai ai ai. "Nessa rua só há dois hotéis e um motelzinho ao fundo, onde alugam-se quartos, será que é esse?". Fui ver. Segui seus passos ligeiros pelas tortas ruelas da velha Damasco. Bati à porta do tal motelzinho, que não tinha nem placa, nem sinal, nem nada. Só porta. Sim, Damascus Hostel. Ufa! Um corredor estreito me levou a um grande pátio com umas tantas portas ao seu redor. Uma delas era a minha, meu quarto, onde fui aquecer aquele frio na barriga que já não tinha razão de ser. Quanto a Garu, se autonomeou meu protetor, e tudo que eu precisasse era só ir atrás dele (meses depois, Garu é um entre muitos protetores que encontrei em Damasco).

A ansiedade para ver o que me aguardava sob a luz do dia não me deixou dormir mais que umas poucas horas. Meus olhos se abriram tão logo os raios de sol e o barulho da vida entraram por minha janela. Meu quarto ficava em uma das torres da muralha. Minha janela dava para a avenida que margeia a cidade antiga, e para um enorme emaranhado de pequenas velhas casas.

Do outro lado da minha porta havia uma enorme mesa ao centro do pátio, onde estava servido o café da manhã: homus, labne, zatar em azeite de oliva, azeitonas, tomates, cenouras, pimentões verdes, pão (sírio - redundante?), café (turco - redundante?) e chá. Ali não nos sentíamos nem hóspedes, nem visitas, mas parte da família. Estávamos no pátio de sua casa, onde se recebia visitas, se assistia novelas, se tomava chá, se fumava. O tempo passava devagar, devagarzinho. Uns se estiravam nos sofás para ler seus livros, outros se sentavam comigo à mesa para fazer aquelas perguntas de sempre.

E saí para explorar.

A cidade antiga merece o nome que leva. Devo confessar que de primeira me decepcionei, pois é velha mesmo, em algumas partes mal cuidada e suja. Mas depois que os olhos se acostumam e o espírito se liberta das expectativas, sua beleza emerge. Suas ruas são estreitas e curvas, muitas sem saída. As paredes altas e cinzas resguardam a beleza vista somente através das portas de madeira trabalhada: pátios de azulejos coloridos, jardins em flor (jasmim, predominantemente) e uma fonte de água no centro, para espantar o calor e a secura. Por onde passo há gente bebericando chá, fumando narguilé e jogando gamão. Por onde passamos há gatos; dezenas, centenas deles; brincando, brigando, revirando o lixo atrás de comida que os moradores deixam especialmente para eles.

Seus souqs (mercados) vendem de tudo: tapetes, tabacos perfumados, especiarias, chás, sabonetes, perfumes, grãos, sementes, castanhas, azeitonas e azeite, lençóis de algodão ("o melhor do mundo, melhor que dos egípcios", dizem), pães, queijos e... damasco! Pelas ruas e esquinas, sentados no chão, homens e mulheres vendem verduras e frutas, pesadas em balanças antigas com pesos de ferro maciço. Vejo mulheres picando salsinha, vendida aos quilos para fazer tabule; vejo homens debulhando milho, que é vendido fresco para fazer salada. Carroças vendem foul cozido com limão, um feijão enorme que tem um cheiro horrível, mas que é uma delícia, especialmente quando acompanhado de um molho de iogurte e tahina (pasta de gergelim). Vejo pessoas se amontoando e se empurrando para alcançar uma pequena janela, mãos ao ar que seguram uma moeda, gritando pelo número de pães que querem levar. Os doces à base de pistache, mel e água de rosas são doces de doer.

Por toda parte, mesquitas espetam o céu com seus minaretes e cantam o chamado melancólico às cinco preces diárias. É na velha Damasco que se encontra a enorme e bela Mesquita Omíada (ou Umayyad), a segunda mais sagrada para os muçulmanos.

O povo sírio é muito, muito querido. As pessoas sorriem, respeitam, ajudam. Ahlan wa sahlan (bem vinda). Há gente de todos os jeitos: de mauricinhos com brilhantina no cabelo a beduínos que parecem ter acabado de estacionar seu camelo na rua de trás; de patricinhas com cabelos esvoaçantes a mulheres cobertas de negro de quem só vemos os olhos (e às vezes nem isso). Algumas pessoas falam inglês, outras, francês. Algumas arranham ("you understand, mam? sorry, sorry!", e aquele sorriso tímido), outras, só árabe. E ainda que eu faça cara de quem não está entendendo chongas, continuam falando (às vezes mais devagar, como se fizesse alguma diferença), gesticulando, sorrindo, e só me resta sorrir de volta.

*Joana Chamusca Chagas é mestre em Direitos Humanos pela London School of Economics and Political Science. Foi funcionária do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) em Brasília e em Nova York. Nascida, criada e mal-criada em Brasília, atualmente mora em Damasco, Síria.

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