domingo, 20 de março de 2011

TRAGÉDIA NO JAPÃO: Sobre sismos e tsunamis

Por Ulisses Capozzoli* 
Via Observatório da Imprensa

Em menos de uma semana, milhões, talvez bilhões de pessoas em todo o mundo aprenderam, com a duríssima lição japonesa, conceitos básicos de geofísica. Com o terremoto, seguido de tsunami que afetou e ainda afeta o nordeste do Japão, placa tectônica foi um conceito incorporado ao cotidiano de pessoas que vão de donas de casa a estudantes, passando por jornalistas, economistas e políticos.


É verdade que a mídia ainda utiliza "grau" para se referir à intensidade de um sismo, quando deveria usar magnitude. A questão, aqui, não é de pura terminologia, mas tanto de procedência quanto, principalmente, tradução da intensidade energética desses fenômenos.

Em sismologia, magnitude como unidade de intensidade de um tremor de terra é uma referência de natureza logarítmica. Indica, por exemplo, que um sismo de magnitude 6 é 10 vezes mais poderoso que um de magnitude 5. E que um de magnitude 7 é 100 vezes mais que o de 5. Sismos de magnitude 5 são relativamente comuns tanto no Japão – com território situado sobre convergências de placas tectônicas – quanto em outras regiões, como o nordeste brasileiro, ainda que as razões para isso sejam distintas.

No Japão há um constante e incessante atrito de bordas de placas, como enormes jangadas movimentando-se em atrito umas com as outras, e algumas mergulhando sob outra, ou outras. No nordeste brasileiro e outras regiões do Brasil, os sismos eventuais se dão junto a falhas geológicas, ou seja, porções da placa tectônica – a Sul Americana – fraturadas e não devidamente "soldadas" ao longo do tempo.

No sudeste brasileiro, especialmente nas proximidades de Poços de Caldas (MG) e São João da Boa Vista (SP), o deslocamento lento e incessante da placa Sul Americana também pode provocar sismos ainda que, ao menos em princípio, de magnitudes não tão elevadas.

No caso do Japão, porém, com sismo que chegou a ser interpretado como de magnitude 9, o tremor foi 10 mil vezes mais poderoso que os que têm ocorrido no nordeste brasileiro, de magnitude 5.

Efeito antrópico

A primeira reação das pessoas, em geral, é associar fenômenos como sismos e vulcanismo – processos também derivado do atrito ou ruptura de placas tectônicas – a ações produzidas por atividades humanas. Já conseguimos, é verdade – como resultado de atividades tanto agrícolas quanto industriais –, alterar a atmosfera da Terra, ainda que essa cobertura vital para a vida possa ser comparada à casca de uma maçã, em relação ao volume da fruta.

Delicada, a atmosfera que dá a cor azul para a Terra, observada do solo ou do espaço, também é fundamental para as formas de vida que conhecemos. Mas interferir no deslocamento de placas tectônicas é algo que, felizmente, ainda estamos longe de fazer porque isso implica manipular o coração quente da Terra há quase 6 mil quilômetros de profundidade.

Carente de conceitos de ciência, no entanto, mesmo pessoas medianamente informadas acabam impactadas com o efeito de fenômenos que parecem ter a mesma origem: a pretensa mão deformadora do homem, visão que deriva de certo fundamentalismo religioso. Mais especificamente o cristianismo, entre as religiões modernas. Clóvis Rossi, veterano e lúcido analista da Folha de S.Paulo, expôs com franqueza essa sensação num de seus artigos recentes.

Não perca o sono, Rossi, ainda não chegamos lá, o que significa que não poderemos fazer isso um dia. Ou que não sejamos tentados a coisas piores.

A verdade, no entanto, é que os sismos/vulcanismos só ocorrem porque a Terra está geologicamente viva. Isso significa que ela recicla gases de efeito estufa, especialmente o gás carbônico, e cria um "cobertor" atmosférico que distribui mais uniformemente a temperatura pelo corpo planetário e permite a manifestação da vida como a conhecemos, incluindo uma civilização como a nossa (ainda que esta seja a única que conhecemos).

O efeito estufa ligado às mudanças climáticas a que a mídia se refere frequentemente está relacionado a uma liberação crescente e descontrolada de gases com essa característica (aquecimento) na atmosfera terrestre. Numa Terra geologicamente morta (como pode ser o caso da Lua ou de Marte), as condições ambientais do planeta seriam radicalmente diferentes e não estaríamos aqui para escrever ou ler este texto.

E não apenas por uma única razão.

Geologicamente morta, a Terra não disporia de um campo magnético e com isso não disporíamos de um escudo magnético capaz de nos proteger contra o bombardeio de partículas de alta energia emitido pelo Sol (vento solar). Especialmente durante os períodos cíclicos médios de 11 anos das explosões solares que estão reiniciando agora com ligeiro atraso.

Para quem acredita que o Sol também se inclui nesta série catastrófica, talvez seja interessante acrescentar que o Sol é uma gigantesca bomba atômica (uma bomba de hidrogênio, por transformar a cada segundo 600 mil toneladas de hidrogênio em hélio e neste processo liberar energia e abastecer a vida na Terra inteira).

Fontes de energia

Um dos desdobramentos mais importantes do terremoto/tsunami sobre o território do Japão já começa a manifestar-se sob a forma de matriz energética. Esta é uma questão que a mídia ainda não teve tempo de tratar. Mas tão logo a dimensão humana com perdas de vidas e destruição material seja minimamente absorvida, as discussões envolvendo energia emergirão no espaço midiático.

Uma parcela do ambientalismo, que se mostra com a posição variável das birutas de aeroportos, já se manifesta contra a energia nuclear. Esta é, de certa forma, uma posição compreensível, levando em conta o impacto de um acidente numa dessas instalações. E o que ocorre no Japão, neste momento, não é o primeiro, nem o segundo ou mesmo o terceiro de um desses episódios extremamente preocupantes.

Mas, o que fazer? Voltar à carga com combustíveis fósseis? Essa é, mesmo no curto prazo, uma solução insustentável, levando em conta o efeito estufa de natureza antrópica e que, tudo indica, está sim associado a mudanças climáticas com dramáticos acidentes ambientais como chuvas e ventos destruidores em diferentes regiões do planeta.

Fontes renováveis como energia eólica, energia solar e outras têm aumentado sua participação na matriz energética mundial, mas é impensável pensar que possam substituir petróleo ou energia nuclear.

Hidrelétricas, a matriz energética brasileira básica, depende, evidentemente, de grandes estoques de água, o que não é o caso em boa parte do mundo. E mesmo hidrelétricas, além do impacto ambiental negativo de inundação de áreas, tem contribuições em relação ao efeito estufa que só recentemente passaram a ser reconhecidas.

Como se não bastasse, fusão nuclear, a energia das estrelas, mais segura que a fissão, talvez só esteja disponível ao final de umas cinco décadas de investigação científica somada a refinamento tecnológico. Sem falar que as fontes tradicionais de petróleo passam por transformações políticas altamente desestabilizadoras neste momento, no caso de países árabes.

Nossos sismos

Em vez de puramente protestar contra usinas nucleares, talvez seja mais prudente exigir dos governos ampliação da margem de segurança dessas unidades, com inspeções mais rigorosas e abandono (o que por si só já é uma atividade altamente complexa) de usinas consideradas tecnologicamente superadas.

Em alguns momentos da história o mundo parece próximo do fim – como apregoam, de tempos em tempos, interpretações místico-religiosas ou o cinema de qualidade ordinária. Quem viveu o bombardeio nuclear sobre o mesmo Japão, em 1945, pode ter pensado que o planeta arderia sob o fogo atômico. Gerações que viveram sob a Guerra Fria também tiveram experiências bem próximas disso e, apesar de tudo, ainda estamos aqui.

Para o melhor e o pior, um observador mais cínico poderia acrescentar: no Brasil não temos tremores de terra e vulcanismo (ao menos há alguns milhões de anos). Mas tremores não são tão remotos assim e não absolutamente rejeitados, ainda que bastante improváveis. Um tsunami, vindo do Atlântico, também não é algo absolutamente impossível, ainda que menos improvável em comparação do "cinturão de fogo" do Pacífico. Mas os deuses fazem desabar sobre nossas cabeças outro tipo de castigos.

Não passa uma única semana, senão um único dia, sem que a mídia, especialmente os jornais, não trate de políticos corruptos, inclusive em processos de eleição/reeleição com apoio surpreendentemente majoritário entre diferentes partidos políticos. Nas últimas noites, ao menos em São Paulo, restaurantes de classe média também são invadidos, tomados e roubados por ladrões em novo estilo, sem que sejam detidos e encarcerados pela polícia.

Sem contar os estragos escandalosos das chuvas de cada verão, e a agonia de invernos de atmosfera carregada de poluição, pode-se dizer que também temos nossos sismos e tsunamis. A diferença é que aqui eles ocorrem em outro estilo.

*Ulisses Capozzoli é jornalista e editor da Scientific Americam Brasil.

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