terça-feira, 15 de março de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen: a poética do real

Por Luiz Lopes*
Via Caderno de Caligrafia

Esta semana consegui ler em meio aos tumultos e correrias um livro de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). A obra se intitula Poemas escolhidos e a seleção dos poemas é de Vilma Arêas. Eu já conhecia a poetisa portuguesa por meio do contato com o trabalho O mar de Sophia, de Maria Bethânia. Nesse trabalho a cantora brasileira recita poemas da poetisa que se referem ao universo do mar. Se meu primeiro contato com Sophia, mediado por Bethânia, foi prazeroso, entrar no universo mais amplo da escritora portuguesa me deu ainda mais prazer. Na antologia estavam alguns poemas ligados ao mar, às águas e ao fluxo da vida, mas havia mais, muito mais.


O pema entitulado "O poema" foi o que mais me fascinou na poética de Sophia. Alguns críticos comparam sua linguagem a de João Cabral de Melo Neto, pela limpidez e concisão. Sua tentativa de escrita se baseia numa proposta de se referir ou de afirmar o real. Assim ela descreve seu processo de composição: “Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado a roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo”.

O que fica bem marcado na fala de Sophia é que sua lírica se constitui por um processo firme de afirmação do real. Ou seja, sua proposta é a de que a arte possa revelar com beleza o esplendor e a dor do real, aquilo que está sempre em fluxo, mas que volta como as ondas do mar. A poetisa pretende sair do plano ideal e afirmar pela linguagem o plano imanente. Ela ainda diz: “A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, pousada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira”. A poesia de Sophia mostra a irrecusável felicidade do real. Deixo aos leitores mais os poemas. Aproveitem!

O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo 

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Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras. 

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A hora da partida soa quando 
Escurece o jardim e o vento passa, 
Estala o chão e as portas batem, quando 
A noite cada nó em si deslaça. 

A hora da partida soa quando 
as árvores parecem inspiradas 
Como se tudo nelas germinasse. 

Soa quando no fundo dos espelhos 
Me é estranha e longínqua a minha face 
E de mim se desprende a minha vida.

*Luiz Lopes é professor de lingua portuguesa do CEFET/MG e edita o blog Caderno de Caligrafia.

Um comentário:

Isa disse...

Ara, gostei muito,ando curiosa das poéticas portuguesas e vou seguir a buscar o disco de Maria Bethania. Parabéns pelo conteúdo. Abç

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