quarta-feira, 30 de março de 2011

Homenagem: Vazios na ciência brasileira

Via Revista Pesquisa FAPESP

Nos últimos três meses o Brasil perdeu dois de seus principais cientistas e um atuante gestor da área da ciência e tecnologia. Morreram a engenheira agrônoma Victória Rossetti, no dia 26 de dezembro; Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de 1980 a 1985, em Brasília, dia 6 de janeiro; e o físico Jayme Tiomno, no Rio de Janeiro, no dia 12 de janeiro.


Jayme Tiomno nasceu no Rio e integrou a geração de importantes físicos brasileiros, que inclui Marcello Damy, Roberto Salmeron, César Lattes, Oscar Sala, Mário Schenberg e José Leite Lopes, entre outros. Formado pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ) em 1941, fez mestrado e doutorado na Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

No período em Princeton trabalhou com os físicos John Archibald Wheeler, Chen Ning Yang (Nobel de 1957) e Eugene Paul Wigner (Nobel de 1963), este último seu orientador no doutorado. Com Yang, Tiomno desenvolveu a teoria da universalidade da interação fraca, publicada em 1950, que levou Wheeler a indicá-lo, sem sucesso, para o Nobel de 1987 juntamente com outros pesquisadores dos Estados Unidos, Índia e China que trabalharam sobre o tema.

Físico teórico, teve participação na criação de grupos de pesquisa em todo o Brasil. Com Lattes e Leite Lopes, foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), em 1949. Em 1966 estava ao lado dos criadores da Sociedade Brasileira de Física. Ensinou e pesquisou também na Universidade de Brasília, Universidade de São Paulo (USP) e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio). “O professor Tiomno, por ter sido um dos grandes físicos brasileiros, valorizado na comunidade internacional de física, foi um exemplo estimulante para muitas gerações mais jovens de cientistas brasileiros”, lembrou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP e também físico.

“Ele foi um dos pioneiros da física de alta qualidade no Brasil. Nas várias instituições por onde passou criou núcleos de grupos de pesquisa”, disse à Agência FAPESP o físico Luiz Davidovich, professor da UFRJ e um dos diretores da Academia Brasileira de Ciências. “Ele inspirou estudantes de diversas gerações. E devemos lembrar que foi um dos cientistas cassados e aposentados prematuramente pela ditadura militar.” O físico carioca teve morte natural em sua residência. Era casado com a também física Elisa Frota Pessoa.

Xylella fastidiosa – Reconhecida como uma das maiores pesquisadoras no mundo em doenças que atingem a citricultura, Victória Rossetti era natural de Santa Cruz das Palmeiras, interior paulista. Foi a primeira engenheira agrônoma formada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em 1939. Em 1940 ingressou como estagiária no Instituto Biológico, onde desenvolveu sua carreira. Dedicou-se sempre à pesquisa das doenças dos citros.

Em 1947 seguiu para os Estados Unidos para cursar estatística experimental na Universidade da Carolina do Norte. Em 1951 e 1952, com bolsa da Fundação Guggenheim, estudou na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Em 1960, com apoio da Fundação Rockefeller, visitou as estações de pesquisas em citros na Flórida e na Califórnia. A convite do governo da França e do Institut National de la Recherche Agronomique (Inra), desenvolveu programa de colaboração científica trabalhando com Joseph Bové em estudos sobre viroides em 1961.

Capacitou-se nas técnicas de diagnóstico de vírus transmissores por enxertia, visando ao Programa de Registro de Matrizes de citros livres de vírus, implantado no estado de São Paulo. Um dos resultados relevantes que conseguiu, a partir de 1958, foi a comprovação do ácaro Brevipalpus phoenicis como vetor da leprose e da clorose zonada. Estudos sobre o cancro cítrico e sobre a clorose variegada dos citros (CVC) – nome sugerido pela pesquisadora em substituição ao popular “amarelinho” –, causada pela bactéria Xylella fastidiosa, motivaram vários trabalhos com colegas do Brasil e do exterior. Recebeu numerosos prêmios, honrarias e homenagens durante sua longeva vida. A agrônoma morreu em consequência de pneumonia.

“Victória Rossetti, por sua enorme contribuição científica, foi exemplo de tenacidade e dedicação ao trabalho e orgulho para o setor agronômico brasileiro”, afirmou Antonio Roque Dechen, diretor da Esalq. “Lamentamos o falecimento dessa pioneira no estudo das doenças que acometem as plantas cítricas, cientista de carreira belíssima e de grande importância, responsável por formar e apoiar gerações de pesquisadores brasileiros”, disse Celso Lafer, presidente da FAPESP, à Agência FAPESP.

A cientista foi especialmente importante para o Programa Genoma, que sequenciou o DNA da X. fastidiosa entre 1997 e 2000. “Foi a colaboração entre ela e Joseph Bové, da França, que permitiu a ele estabelecer a relação causal entre a CVC e a bactéria”, conta José Fernando Perez, então diretor científico da Fundação, que financiou o sequenciamento. Foi o cientista francês quem trouxe a técnica de crescimento da cultura de Xylella para que houvesse DNA suficiente para sequenciar. “Logo, se não fosse o trabalho anterior da Victória com o Bové, realizado por iniciativa dela, talvez não tivéssemos escolhido a Xylella para trabalhar.”

Gestão em C&T – O paraibano Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, de Campina Grande, era engenheiro civil graduado pela Universidade Federal de Pernambuco. Foi diretor da Escola Politécnica da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), de 1964 a 1971, embrião da atual Universidade Federal de Campina Grande. Passou pelo Ministério da Educação, foi reitor da UFPB (1976-80), presidiu o Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (1977-78) e dirigiu a Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica Industrial (Abipti).

No CNPq foi o presidente de 1980 a 1985, onde teve uma gestão marcante. Implementou o programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT). Criou o primeiro parque tecnológico do país com incubadora de empresas, além de atuar nos estados e municípios para a criação de secretarias estaduais e municipais de Ciência e Tecnologia. Concebeu instituições como o Laboratório Nacional de Computação Científica, o Museu de Astronomia e Ciências Afins e o Observatório Astrofísico de Brasópolis, entre outros. Como Victória Rossetti, morreu em consequência de pneumonia.

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