quinta-feira, 31 de março de 2011

Fukushima: Entre o razoável e o espetáculo

Por Antônio Arapiraca
Via Terra Magazine

No dia 11 de março de 2011 uma hecatombe de proporções colossais atingiu o Japão e deixou um rastro de destruição e perdas incalculáveis. O deslocamento entre as placas tectônicas norte-americana e do pacífico produziu um terremoto de magnitude 8,9 na escala de Richter seguido de tsunami com ondas gigantes. Antes mesmo que a nação nipônica pudesse digerir a tragédia e sentir a dor da perda de seus mortos, uma avalanche midiática agravou ainda mais a situação.


O mote para essa avalanche foram as avarias sofridas pelas usinas termoelétricas nucleares japonesas, sobretudo a de Fukushima Dai-ichi que contava com seis reatores nucleares do tipo BWR (construídos com tecnologia norte-americana) e que sofreram os maiores danos.

A situação em Fukushima é gravíssima, e é impossível responder com precisão sobre os impactos do desastre em uma nação sob escombros. A deselegância diplomática (para não usar outros termos!) que temos visto por parte de alguns países para com o Japão é inadmissível. Inclusive, tem sido comum ver o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o japonês Yukiya Amano, ser pressionado a dar declarações sobre informações "precisas" apressadamente. A velocidade como as coisas são respondidas é tal qual a velocidade com que elas têm sido retificadas. Não é preciso ser um expert em engenharia de reatores para saber que essas informações não estão disponíveis em tempo real numa situação como esta.

A foto de um dos diretores da Tokyo Electric Power Company (Tepco) em prantos ao elevar a classificação de risco do acidente de Fukushima é reveladora sobre o estado de coisas atual e talvez seja uma expressão de como andam as coisas por lá. O Japão falhou? A tecnologia nuclear falhou? O que pode ser considerado falha em se tratando deste tipo de evento natural? De maneira alguma isso isenta o Japão de dar repostas rápidas, mas o tamanho e a complexidade dos problemas são de tal modo que a paciência e solidariedade com os japoneses devam ser reforçadas. Mas, que fique claro: os japoneses não têm no seu currículo um acidente nuclear por falha técnica ou humana.

Essas são questões interessantes que não temos visto em profundidade no noticiário, que aliás já tem um outro vilão, nesse caso Muammar Gaddafi (ditador Líbio), ocupando as manchetes. Vilão este que tem seu trono em cima de grandes quantidades da principal matriz energética do mundo atual: petróleo. Urge a necessidade de distinguirmos o que é realmente nuvem de radiação e o que é cortina de fumaça. Ainda mais quando o que está em jogo é um mercado multimilionário, e a liderança na produção das tecnologias que vão alimentar esta demanda.

Uma pauta dessa relevância deveria ser tratada com a máxima responsabilidade e o mínimo de sensacionalismo possível. Infelizmente alarmismo e espetacularização da tragédia ressoam com mais furor em nossa sociedade. Em linguagem coloquial, vendem muito mais. Uma breve análise de certos discursos proferidos na mídia com relação ao uso de radioatividade e energia nuclear é um sinal claro de que existe muito pouca informação de qualidade disponível sobre o tema. Falar sobre matriz energética é dialético. É, sobretudo, um debate sobre a condição humana no planeta. Acidentes como esse deveriam servir para refletirmos sobre que uso devemos fazer de certos recursos tecnológicos.

A despeito do espetáculo midiático, mesmo a energia nuclear, prestando bons serviços à sociedade (quando bem controlada e manipulada) das mais variadas formas, devemos discutir com clareza as vantagens e desvantagens do uso de tal tecnologia. Não adianta, por exemplo, os governos e a indústria termonuclear se eximirem de prestar contas de forma transparente para a sociedade sobre as reais condições em que se encontram as usinas, como alerta a professora da USP Emico Okuno em matéria de 17/03/2011 publicada no Vi o Mundo, onde denuncia aspectos que são em geral omitidos na hora de debater a manipulação e controle das plantas termonucleares.

Mas, nem só de fissão atômica vive o homem e uma questão que chama a atenção é o fato de que pouco tem se debatido sobre os impactos ambientais que outras matrizes energéticas causam. Tomemos o uso de recursos hídricos como exemplo inicial. O alagamento de milhares de quilômetros quadrados de florestas, o desalojamento de milhares de famílias e a emissão de uma quantidade expressiva de gases poluentes parecem depor negativamente para com o uso de bacias hidrográficas. Ou seja, parte significativa do impacto já se dá na implantação de uma hidrelétrica. E por falar em emissão de poluentes, essa não é a especialidade das usinas termoelétricas a carvão e da indústria dos hidrocarbonetos?

Por outro lado, alguns ambientalistas afirmam que o uso das energias eólica e solar é a solução para os nossos problemas energéticos. De fato, essas duas formas de transformação de energia são muito versáteis e acredito que um investimento pesado nesses setores deva ser uma prioridade. Muitos países já fazem isso. Mas, além das atuais limitações de eficiência desses tipos de tecnologia, devemos analisar as implicações ambientais do uso das mesmas. No processo de fabricação das placas solares utilizam-se metais pesados extremamente nocivos à saúde. Qual seria o efeito disto em larga escala? Indo além, podemos fazer um questionamento sobre o efeito no ecossistema global devido à mortandade de pássaros que vai ser produzida quando tivermos centenas de milhares de quilômetros de hélices? Quantas famílias serão desalojadas para a construção de usinas eólicas e solares? Até mesmo para pesquisar e aprimorar essas fontes necessitaremos de energia elétrica.

Bem, debater em termos da redução de danos e de eficiência energética parece ser mais adequado do que tratar a questão em termos de acabar com essa ou aquela alternativa energética, pois o termo "Energia Limpa" está no plano das metáforas e não no de uma realidade acessível. Sabemos bem o que acontecerá no mundo moderno sem boas fontes de eletricidade.

E não esqueçamos que qualquer que seja a escolha, essa vai favorecer uma determinada indústria, um determinado setor tecnológico. Logo, a disputa será acalorada. E do jeito que a demanda cresce as nações inevitavelmente lançam mão do uso de diversas alternativas energéticas combinadas. Além disso, é notório que diversos países da Europa e o Japão não dispõem de bacias hidrográficas ou reservas de carvão. Penso ainda que devemos fazer mais um questionamento: qual país está disposto e preparado a desacelerar seu processo de desenvolvimento recuando no consumo de energia elétrica?

Antônio Arapiraca é físico, professor do CEFET/MG e editor do fóton Blog

Um comentário:

Edjoane disse...

É isso ai antònio.Jogue duro!Adorei

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