quinta-feira, 31 de março de 2011

A arte do deslocamento: sobre o filme Lixo extraordinário

Por Luiz Lopes*
Via Caderno de Caligrafia



Domingo, depois de viajar mais de 5 horas, cheguei ao meu destino. Há algum tempo me acostumei com deslocamentos, antes por causa dos estudos, e, agora, em virtude do trabalho. Toda viagem, por mais breve que seja, obriga o sujeito ao prazer e ao esforço de se deslocar. O melhor desse deslocamento acontece pelo olhar. Mas voltando ao começo, depois de 5 horas de viagem, cheguei em casa e fui assistir ao filme Lixo extraordinário (2010), dirigido por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley.

Como já havia visto filmes como Estamira, Boca do lixo, A ilha das flores e alguns outros que me escapam agora e que tematizam o problema de pessoas que vivem/trabalham em aterros sanitários, pensei que o filme seria só mais um filme. Na verdade, a obra é um registro de um projeto do artista plástico Vick Muniz, a partir do qual o artista ajuda as pessoas que vivem do lixo a verem o material que lhes serve como suporte para sobrevivência por outro prisma. O lixo deixa de ser material de sobrevivência e passa a ser material para que esses sujeitos se representem e se expressem artisticamente.

Há uma sequência antológica na qual Vick conversando com os catadores diz que um sujeito que vai a um museu ver um quadro faz sempre dois movimentos: o de aproximar-se do quadro (momento no qual observa o material com o qual o quadro foi pintado) e o de afastar-se da tela (oportunidade na qual pode ver uma representação em si). Para o artista plástico, seu projeto permite esse deslocamento do olhar, já que os catadores viam apenas o lixo como matéria, mas não podiam se afastar de sua realidade para observarem o que é possível fazer do lixo, além de tirar seu próprio sustento. O projeto, portanto, permite esse movimento que não era feito até então por quem estava inserido naquela realidade. As obras que os catadores fazem representam eles mesmos, a partir de fotos que Vick fez anteriormente.

Fiquei tão emocionado com essa fala sobre o deslocamento que só ela já foi suficiente para eu me entregar ao documentário. Mas essa é apenas uma reflexão das muitas que o filme permite. O deslocamento que ocorre é muito maior, passa por uma reformulação da própria identidade dos sujeitos. Talvez a maior seja dizer com bastante sofisticação que a arte ainda pode ajudar muito o homem no seu processo de vir-a-ser.




*Luiz Lopes é professor de lingua portuguesa do CEFET/MG e edita o blog Caderno de Caligrafia.

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