sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Relatório aponta que Investimento público em pesquisa é o que alimenta a inovação

Por Carlos Orsi

Embora mais de 70% de todas as atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas nos Estados Unidos sejam feitas em empresas privadas, apenas 13% deste trabalho é voltado para pesquisa básica, setor onde se encontra o maior potencial para inovações radicais e que segue precisando de forte apoio estatal, diz o relatório “Research, Development, Innovation and the Science and Engeneering Workforce”, publicado pela National Science Board (NSB). A NSB é o órgão dirigente da Fundação Nacional de Ciências dos EUA e atua em capacidade consultiva para o presidente e o Congresso.

Para exemplificar a importância da pesquisa acadêmica financiada com verbas federais para o processo de inovação tecnológica do país, o trabalho se vale dos números de citações de artigos científicos em patentes concedidas nos EUA. “Citações de artigos de autoria da indústria (...) perderam participação nas citações de capa das patentes, principalmente por conta do aumento dos artigos da academia, que cresceram de 58% para 64%”, no período de 1998 a 2010.

As áreas em que houve crescimento mais expressivo foram engenharia – onde a academia respondia por 46% das citações na capa das patentes em 1998, chegando a 63% em 2010 – e física, com salto de 43% para 66%.

Além de servir de base para uma parcela cada vez maior das patentes registradas, as pesquisas acadêmicas também geram cada vez mais patentes próprias: dados da Associação de Gerentes de Tecnologia Universitária (AUTM, na sigla em inglês) indicam que o número de pedidos de patente feitos por universidades praticamente dobrou em menos de uma década, indo de 6.500 em 2001 para 11.300 em 2009. E a maior parte da pesquisa acadêmica é financiada pelo governo federal: em 2009, as atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas em universidades consumiram US$ 54,9 bilhões (cerca de R$ 110 bilhões), sendo que 58% desse valor veio do erário.

Setor privado

Apenas 3% das empresas americanas conduzem atividades de pesquisa e desenvolvimento, mas essa pequena parcela respondeu por 71% de todo P&D realizado no país em 2009, diz o relatório, e por mais de 60% de todo o investimento. No entanto, 80% dos recursos privados de P&D são voltados para o “desenvolvimento”. Do restante, 13,9% são investidos em pesquisa aplicada e 5%, em pesquisa básica.

“O financiamento de desenvolvimento geralmente apoia inovação incremental, em vez da transformativa”, destaca o relatório. “Inovações transformativas tornam-se mais prováveis quando a pesquisa básica leva a passos quânticos na expansão do conhecimento”, prossegue o texto. “Aqui, o governo federal desempenha um papel fundamental, arcando com 53% de todo o financiamento de pesquisa básica nos EUA,comparado com 22% do setor de negócios”.

“Estes investimentos em pesquisa básica criam os tijolos da inovação, criando a base de conhecimento transformativo de que o setor privado lança mão”, afirma a NSB.

O relatório nota que, a despeito da crise internacional, o investimento dos EUA em P&D segue “forte”, mas que a recente redução do apoio do setor privado e os cortes de gastos públicos são motivo de preocupação.

O trabalho encontra sinais de recuperação do investimento de capital de risco em ciência e tecnologia. Depois de atingir em pico em 2000 e de oscilar entre altos e baixos até 2007, esse tipo de investimento caiu por dois anos consecutivos – em 2008 e 2009 – mas voltou a subir em 2010.

Necessidade

“P&D básico e aplicado que o setor privado não tem probabilidade de sustentar em nível suficiente requer financiamento sustentado e direto do governo federal”, conclui o relatório. Isso é necessário “para criar a base de conhecimento de ideias de potencial transformativo” que gera inovação.

Além disso, em cenários de retração do investimento privado, é preciso que o Estado supra esse papel – algo que, de acordo com a NSB, ocorreu nos dois períodos de redução de atividade econômica verificados neste século. A despeito desse fato, o relatório adverte que o financiamento público para universidades de pesquisa vem caindo, ao mesmo tempo em que o número de estudantes e os custos aumentam.

“O financiamento público é essencial para sustentar a excelência das instituições públicas de pesquisa que desempenham um papel significativo no sistema de inovação dos EUA”, adverte o trabalho.

Um comentário:

boechat disse...

No meu "humilde" ponto de vista, considero discutível tais resultados. Toda vez que ouço algo sobre aplicação de dinheiro público, fico em alerta.

Sempre fico com a impressão que dinheiro público cresce em árvores. O que me pergunto é: quem julga a importância dessas inovações? Todos os contribuintes (adoro essa palavra!) participam desse julgamento? Eles têm a opção de não contribuir em algo que eles não acreditam que possam trazer algum retorno para eles mesmos?

Dinheiro público é escasso e sai do bolso de todos. Gostaria que as pessoas tivessem maior liberdade para investirem o próprio dinheiro naquilo que lhes pareça melhor. Acho muita prepotência um grupo de pessoas decidir sobre o destino do dinheiro das demais.

Por eu mesmo já ter participado de algumas, reconheço os ganhos que são gerados pela pesquisa realizada nas universidades. Entretanto, acho que a importância desses ganhos é sempre julgada por um pequeno grupo de pessoas, por mais que os custos sejam arcados por toda a sociedade.

Antes de levantarmos a bandeira de investimentos públicos na educação, saúde, copa do mundo, etc., levantemos a bandeira da liberdade.

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