sexta-feira, 10 de junho de 2011

Campinasuchus dinizi: o pré-histórico crocodilo mineiro

Por Vilma Homero
Do Rio de Janeiro

Divulgação/arte de Mateus Grimião
A cena é ambientada na região de Campina Verde, no Triângulo Mineiro. Na animação em 3D, crocodilos carnívoros correm agilmente atrás de suas presas, e somos praticamente levados a participar da imagem, que mostra, ao fundo, a paisagem árida em que viveu, há 90 milhões de anos, o Campinasuchus dinizi.

Não é por acaso que esse crocodilo primitivo é personagem do DVD de animação que os paleontólogos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) estão produzindo para divulgar, dentro de alguns meses, as descobertas da paleontologia a estudantes do ensino médio da rede pública e a todos os que desejam conhecer mais sobre a história da vida da Terra. Fósseis do animal, encontrado em 2009 e recentemente descritos em artigo publicado na revista Zootaxa, andam empolgando os especialistas do setor.

Considerado o avô dos grupos que dominaram o interior do Brasil na era dos dinossauros, o Campinasuchus dinizi tem características bastante peculiares. Segundo Ismar de Souza Carvalho, paleontólogo da UFRJ, Cientista do Nosso Estado pela FAPERJ e um dos autores do artigo em que ele é descrito e apresentado à comunidade científica, seus dentes pontiagudos indicam que ele era um predador voraz. "Sua dentição possibilitava que não só comesse carne, como também fosse carniceiro, consumindo os animais que encontrava em putrefação." Outra característica a destacar é o contato entre osso frontal e nasal que possibilitam inseri-lo como o mais primitivo do grupo dos Baurusuchideos do Brasil que, até agora, só contava com quatro espécies descritas. "Esta semelhança é compartilhada com o Wargosuchus da Argentina", comenta Luiz Carlos Ribeiro pesquisador da UFTM, também um dos autores do artigo.

Diferente dos crocodilos atuais, que habitam ambientes aquáticos em clima quente e úmido, o Campinasuchus media apenas 1,80 m, tinha cauda cilíndrica e curta, e era essencialmente terrestre, bem adaptado a viver afastado de lagos e grandes rios, suportando bem o clima árido e as altas temperaturas do final do Cretáceo. "Eram temperaturas que chegavam facilmente a 55 graus Celsius, ainda mais quentes do que as dos desertos atuais", explica Ismar. Suas pernas eretas lhe davam agilidade e grande mobilidade, permitindo-lhe que corresse por longas distâncias.

 Divulgação
 Pelos achados das escavações, os pesquisadores acreditam  que há outros fósseis soterrados na fazenda Três Antas

"Possivelmente, também contava com poucos osteodermos – ou seja, as placas ósseas que recobrem a pele dos crocodilos –, o que o tornava mais leve e ágil, sua principal fonte de alimento eram peixes, tartarugas, bem como também pequenos crocodilomorfos e dinossauros herbívoros de pequeno porte", sugere Ribeiro. Ismar prossegue, acrescentado outras características que distinguem o Campinasuchus. "Suas narinas, na parte anterior do crânio, também indicam que não se tratava de animal que vivesse na água, como os crocodilos atuais.

E suas patas dianteiras mostram que o animal era capaz de escavar, o que nos leva a pensar que provavelmente isso lhe facilitava cavar o solo para se enterrar na lama em épocas de seca, mantendo a temperatura e umidade corporais", conta. Essa estratégia de sobrevivência também foi o que facilitou a preservação do Campinasuchus dinizi, encontrado na fazenda Três Antas, em Campina Verde, no Triângulo Mineiro. "Como há vários espécimes concentrados na área, em bom estado de conservação, os esqueletos ainda com os ossos articulados, tudo leva a crer que esses animais tenham se enterrado na lama ainda vivos, mas não tenham conseguido suportar um período de seca muito prolongado", explica Ismar. E Ribeiro acrescenta: "É provável que tenha havido uma mortandade em massa, possivelmente como resultado de períodos de estresse térmico e total ausência de água naquela bacia."

A descoberta desses fósseis – o primeiro deles encontrado pelo proprietário da fazenda, Amarildo Martins Queiroz, que, desconfiado que fossem mais antigos do que os dos animais que criava, levou-o ao Museu dos Dinossauros (UFTM) em dezembro de 2009 – e acabou transformando a Três Antas num grande sítio paleontológico. E também ao batismo do Campinasuchus, que recebeu o nome específico "dinizi" em homenagem ao filho de Amarildo, Izonel Queiroz Diniz Neto, falecido ainda criança.

Os pesquisadores da Universidade do Triângulo Mineiro, encarregados das escavações, ainda esperam encontrar outros nove esqueletos na região. "É uma área abundante nesses fósseis, em terreno de rochas vulcânicas, que possibilitarão a datação com base em radiometria, mais acurada do que datação relativa usualmente feita", fala Ismar. Para Ribeiro, o sítio paleontológico em que se transformou a fazenda Três Antas tornou-se o mais novo "Lagerstatten" continental brasileiro. A expressão em alemão, na verdade, significa uma concentração excepcional de fósseis em quantidade, variedade e grau de preservação. "Conta com alta concentração de fósseis em bom estado de preservação, materiais completos, que possibilitarão contar detalhes da história biológica da vida durante o Cretáceo Superior", comenta Ribeiro.

   Divulgação
Com as análises feitas, os pesquisadores puderam     construir réplicas de como seria sua aparência original
Do mesmo sítio em que foi descoberto o Campinasuchus, os pesquisadores esperam encontrar exemplares associados a peixes e possíveis rãs, trabalhos que ainda estão em fase inicial de investigação. Na medida em que as análises do material encontrado foram sendo realizadas, o Campinasuchus foi tendo as formas reconstituídas. Além dos modelos em computador, uma réplica em espuma floral ajudou que se conseguisse visualizar sua aparência original. Os fósseis e suas reconstruções paleoartísticas estarão reunidos numa mostra especial, incluída na exposição "Vida Pré-Histórica", em cartaz no Complexo Cultural e Científico de Peirópolis, da UFTM, na cidade mineira de Uberaba. Outro passo é sua reconstituição em animação 3D, atualmente em andamento e com que os pesquisadores pretendem recriar, num documentário de 15 a 20 minutos de duração, a imagem e a vida do Campinasuchus dinizi. Trabalhos – pesquisa e reconstrução artística – que, além das duas universidades, tiveram suporte financeiro da FAPERJ, Fapemig, CNPq e da Henkel do Brasil. "Tudo isso será uma forma de partilhar essas descobertas com todos os amantes da Paleontologia. Esperamos que despertem um interesse quase tão grande quanto as animações do cinema."

fonte: Boletim FAPERJ

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