sábado, 11 de dezembro de 2010

Radiação Síncrotron para o desenvolvimento


fóton Blog/Divulgação
Durante o VIII Workshop em Física Molecular e Espectroscopia (VIII WFME), realizado em Curitba, de 23 a 26 de novembro, o fóton Blog entrevistou Antônio José Roque da Silva,  diretor do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). Silva é professor da Universidade de São Paulo (USP) onde atua nas áreas de Física Atômica e Molecular e Física da Matéria Condensada.


Em sua palestra ele destacou a construção de uma nova fonte de radiação síncrotron que será batizada com o nome Sírius e enfatizou o passado, presente e futuro do laboratório.


O Laboratório Nacional de luz Síncrotron (LNLS), localizado em Campinas/SP, é um grande acelerador de elétrons que permite que radiação eletromagnética possa fazer investigação da estrutura molecular dos mais diversos tipos de materiais. Inaugurado em 1997, este laboratório é equipado com um tubo em forma de anel com 93,2 metros de comprimento onde um feixe de elétrons é acelerado até atingir uma energia de 1,37 GeV. Estes elétrons quando colocados em movimento numa trajetória circular emitem radiação eletromagnética, ou seja, luz. Essa é a chamada luz síncrotron, um tipo de radiação altamente intensa. Em seguida, essa luz é coletada em linhas de luz pelos cientistas para os mais diversos tipos de aplicações, o que traz o desenvolvimento de novas tecnologias.

Entrevista concedida ao físico Antônio Arapiraca com a colaboração da jornalista Débora Alcântara

fóton Blog – O senhor anunciou na sua palestra que a nova fonte Sírius vai ser construída com uma capacidade energética de 3,0 gigaelétrons-volts (GeV). Só que isso vai levar de quatro a cinco anos de construção. A China tem uma fonte síncrotron com 3,5 GeV. Não seria o caso de o Brasil pensar em um projeto mais ousado, para quando estiver pronto, o nosso país ficar na vanguarda da engenharia de aceleradores no mundo?

Antonio José Roque – Primeiro, a gente está falando de acelerador para geração de radiação síncrontron. É importante deixar bem claro a diferença entre um acelerador síncrotron e o acelerador do Grande Colisor de Hádrons, o LHC, que está no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, o CERN, cuja escala de energia e objetivos são outros. Comparando os síncontrons, os equipamentos que estão na faixa que vai de 2,5 a 3,5 GeV vão gerar radiações muito parecidas, o importante não é só a energia dos elétrons, mas também o campo magnético dos dipolos, a emitância da máquina, que é a grandeza que mede o tamanho e a abertura angular, e a possibilidade de colocarmos dispositivos de inserção. Uma questão importante num acelerador síncrotron, seja ele de 3,0 ou de 3,5 GeV, é a emitância e o nosso acelerador de 3,0 GeV terá uma emitância baixa, menor do que a do acelerador chinês. Isso vai permitir que a nossa máquina tenha altíssimo brilho, numa faixa de freqüência que ultrapassa os 100 KeV, dependendo dos dispositivos que se coloque. Praticamente todos os experimentos que você possa imaginar, num período de 25 anos, a nossa máquina vai cobrir (os experimentos) igualmente ou melhor que todas essas máquinas.

fóton Blog – A gente sabe que parte da clientela de usuários do LNLS é o setor industrial. Porém, a maior parte da clientela do LNLS ainda é proveniente da comunidade acadêmica, do mundo científico. Um grande problema do Brasil é o atraso tecnológico, ou seja, de indústrias desenvolvendo tecnologia. Como o LNLS pode ajudar nisso? E qual tem sido a relação do LNLS com a indústria?

Antonio José Roque – Obviamente o LNLS, como um laboratório nacional, se preocupa com esse problema. É um problema que está na pauta do Brasil: a questão da inovação. Nós temos hoje, do ponto de vista de recursos orçamentários, que incluem apoio direto do Ministério da Ciência e Tecnologia (MTC), financiamento de agências de fomento, CNPq, Finep e parcerias com a indústria. Essas parcerias com a industria equivalem a um montante de 10% de todo esse volume. Geralmente esses recursos vem associado a projetos específicos e o nosso maior parceiro atualmente é a Petrobrás. A gente vem convidando e entrando em contato com empresas de diferentes áreas. Recentemente nós convidamos um pesquisador francês que já morou no Brasil. Ele é especialista em interação com áreas de cosméticos. Nós convidamos a Natura e outras empresas da área de cosméticos para aprenderem com esse pesquisador sobre as possibilidades do LNLS na área. Essa é uma ação que a gente faz. A outra ação importante é tentar aumentar a interação com as escolas de engenharia. Porque muitas empresas buscam a parceria dessas entidades. Obviamente que o LNLS não vai resolver sozinho esse problema do atraso tecnológico do Brasil. Esse é um problema conjuntural: temos um nível relativamente baixo de pesquisa nas empresas. Dependemos também de uma série de outras ações que dependem do governo, de estabilidade da economia, entre outras questões.

fóton Blog – Uma questão muito importante é informar a população sobre esse tipo de investimento e conscientizá-la de que isso não é gasto, isso é investimento inclusive para o desenvolvimento social. Neste aspecto, quais as iniciativas do LNLS quanto à divulgação científica? E como o senhor avalia a cobertura da mídia em relação à construção da nova fonte?

Antonio José Roque – A gente tem tentado melhorar nesse aspecto. Temos um trabalho na parte da divulgação que ainda precisa ser incrementado. Estamos conversando com a Sociedade Brasileira de Física, por exemplo, para tentarmos fazer uma escola para professores de segundo grau, semelhante à escola que existe no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), para aprenderem sobre a Física num ambiente como aquele. Temos recebido visitas de escolas, mas isso tem sido mais restrito à região de Campinas. Estamos melhorando a nossa página da Web, de forma que fique mais focada nos resultados científicos. Assim, a população poderá perceber a importância disso. Mas precisamos apostar mais em palestras e em cursos com material escrito. No entanto, essa tarefa é difícil de ser tocada pela equipe do LNLS, que tem outras tarefas, como tocar o anel e atender aos usuários. Por isso é importante que a comunidade científica que usa o LNLS participe, ela mesma, dessa divulgação. Com relação à cobertura da mídia, estamos nos esforçando para aumentá-la. Estamos falando do único laboratório de radiação síncronton da América Latina construído quase na sua totalidade com tecnologia desenvolvida no Brasil. É um orgulho para qualquer brasileiro saber que a gente tem isso. Está havendo pouca cobertura sobre esse assunto. Talvez a mídia no Brasil tenha dado, de maneira geral, pouca cobertura à ciência e tecnologia. Isso tem que ser abordado de forma mais séria, pois chega a ser um problema atrair jovens para trabalharem nas áreas exatas, como a Física, a Química, as Engenharias. Esses exemplos teriam que ser muito mais divulgados.

fóton Blog – Tratando-se do LHC, The Large Hadron Collider, ou Grande Colisor de Hádrons, existe alguma interação do pessoal da Física de Partícula, do LHC, com o pessoal que atua no LNLS?

Antonio José Roque – Temos um acordo assinado diretamente com o CERN. Mas para ser bem honesto, nossa interação com o CERN não tem sido muito grande, porque apesar de serem dois aceleradores, a escala de energia de um é completamente diferente da escala de energia do outro. Então o que se desenvolve para o CERN é parecido, mas não diretamente utilizável no LNLS. O que existe é uma grande interação do LNLS com outros laboratórios síncrontons do mundo. São todos aceleradores, e com as mesmas questões, problemas e desenvolvimentos. Então existe essa interação, tanto com nossas visitas lá, quanto com as deles aqui, para aprenderem coisas com o Brasil. O que o nosso País desenvolveu, em muitos casos, serve de referência para outros laboratórios.

fóton Blog – Como a comunidade científica pode ajudar a acelerar a implementação do novo anel Sirius, orçado em US$ 200 milhões, já que falta ainda grande parcela dos recursos para sua efetivação?

Antonio José Roque – Acho que a comunidade tem de existir duas formas de participação. Uma é uma ação que eu chamaria de política, em que as diferentes sociedades, como a Sociedade Brasileira de Física, a Sociedade Brasileira de Química, as Sociedades de Cristalografia, de Bioquímica, entre outras, manifestarem-se explicitamente apoiando a construção do novo anel. Obviamente outros pesquisadores, individualmente, podem contribuir escrevendo artigos, fazendo divulgação. Porque todos eles são usuários. Nós temos uma comunidade grande de usuários. Outras entidades também podem cumprir esse papel. A SBPC e a Academia Brasileira de Ciências, por exemplo, também deveriam, na minha opinião, eventualmente se manifestar. Este seria um envolvimento político. Outro envolvimento, um pouco mais restrito aos usuários, é a participação do projeto. Esse é um projeto capitaneado pelo LNLS, mas é um projeto do País. Então, a ciência que vai sair dessa máquina depende de quais as linhas de luz serão requisitadas, de quais características serão necessárias pela comunidade científica usuária. Essa ciência depende da comunidade. É importante que pesquisadores se envolvam e submetam projetos para os agentes financiadores. Daí pode sair uma nova linha de luz desenvolvida pelos usuários.

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