sábado, 11 de setembro de 2010

Físico: um profissional preparado para resolver problemas

 Olá Leitores do CTCL,

Hoje apresentamos com enorme prazer um post gentilmente cedido pelo físico mineiro Thiago Gomes de Mattos. O Dr. Thiago tem graduação e mestrado em física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Doutorado em Física pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e realiza pesquisas na área de Física Estatística e Termodinâmica, trabalhando com métodos computacionais para estudar autômatos celulares, dynamic scaling, sistemas fora do equilíbrio e crescimento de interfaces rugosas. Atualmente Thiago realiza estágio pós-doutoral no Max Planck Institute for Metal Research em Stuttgart na Alemanha e deixa aqui no CTCL suas impressões sobre a profissão do Físico.

Mais informações sobre o autor e sua carreira podem ser encontradas no seu Currículo Lattes.

Boa Leitura

Prof. Antônio Arapiraca

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Físico: um profissional preparado para resolver problemas 

Por Thiago Gomes de Mattos,
Stuttgart - Alemanha
Sábado, 5 de junho de 2010


Não são raras as vezes em que, ao responder à pergunta “qual é a sua profissão?”, escuto comentários do tipo “você é louco!”, ou o clássico “você deve ser muito inteligente!”. Ora, escolher a Física como profissão não é sinal de inteligência, muito menos de loucura. Loucura seria escolher uma atividade laboral que não te desse o mínimo de prazer em seu exercício. E “inteligência” não se mede pelo conhecimento em matemática ou em qualquer Ciência Exata, mas sim pela relevância dos resultados que você obtém em seu trabalho, seja ele qual for.

Inteligência e loucura à parte, escolher a profissão de cientista ainda requer uma certa dose de coragem. Pelo menos no Brasil, um país que, apesar do notável (e recente) crescimento no panorama econômico mundial, ainda investe pouco em Ciência e Tecnologia, em comparação com diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Além disso, ainda existe uma certa idéia engessada na cultura brasileira de que a academia é uma escolha profissional ruim, com péssimas perspectivas financeiras. Mas isso, na verdade, é uma grande falácia, oriunda de uma geração acostumada a respeitar somente um seleto e celebrado conjunto de profissões, tais como Engenharias, Direito e Medicina. E,infelizmente, alguns jovens que optam por carreiras científicas, ainda têm que lidar com a dificuldade de “convencer” seus familiares de sua opção profissional.

Mas, uma vez vencida a barreira da “coragem”, um horizonte profissional muito interessante se abre diante de você. Um horizonte bastante diverso daquele que se vê no “mercado padrão”, aquele das empresas, indústrias, escritórios e hospitais. Você se vê diante de uma gama enorme, quase infinita, de conhecimento. E, tão importante quanto a perspectiva do aprendizado, o surgimento de novos desafios: problemas não resolvidos, perguntas não respondidas e questões em aberto. Esse é o desafio do cientista: fornecer respostas para as muitas perguntas existentes e, muito mais do que isso, propor novas perguntas relevantes para a comunidade científica. A cada resposta fornecida, muitas novas perguntas surgem. Ainda bem.

Dentro desse contexto da pesquisa científica, posso falar com certa propriedade do papel do Físico. É claro que ainda tenho muito chão para percorrer, mas já posso compartilhar a experiência que adquiri nesses meus pouco mais de 10 anos de profissão.

A Física é uma ciência muito interessante, não só por sua proposta primordial de tentar entender racionalmente como funciona o universo em torno de nós, mas também por sua notável interdisciplinaridade: o físico interage com profissionais (cientistas ou não) de diversas áreas, tais como químicos, biólogos, cientistas sociais, filósofos, economistas, engenheiros e, pasmem!, administradores de empresas. Isso demonstra que a Física é muito mais que as Leis de Newton, a Mecânica Quântica ou a famigerada equação de Einstein para a energia de repouso de um corpo, E=mc2.

O segredo dessa forte interatividade está no fato de que o físico é um profissional treinado para resolver problemas. Não somente problemas como o consagrado plano inclinado da Mecânica Clássica, ou os ciclos da Termodinâmica, ou o átomo de Hidrogênio. Mas problemas em geral. O físico está preparado para encarar uma situação, i.e. um problema, de forma pragmática: qual é a situação atual? Aonde se quer chegar? Quais são as ferramentas à minha disposição? Qual a forma ótima de chegar ao objetivo proposto?

É claro que, apesar da aparente simplicidade da proposição da “equação”, um conhecimento técnico específico da área em que se localiza o problema é necessário para o cumprimento da tarefa (Quais são as ferramentas à minha disposição?). Não estou dizendo que um físico pode chegar, do nada, a uma empresa e começar a ditar algoritmos para o melhor estratagema corporativo. Longe dessa petulância! Não obstante, com algum aprendizado das ferramentas disponíveis no mercado de atuação de tal empresa, o físico é capaz de desenvolver habilidades para elaborar estratégias com destreza diferenciada. E isso tem sido reconhecido no últimos tempos, haja visto que há físicos ocupando importantes posições em diversas empresas de inúmeros ramos profissionais, desde a metalurgia até o mercado financeiro.

Cai, portanto, o mito do físico nerd que domina nada mais que equações, gráficos e conceitos abstratos. O físico é um profissional treinado para resolver problemas.

8 comentários:

Psycho Mad Physicist disse...

Muito bom o texto! Parabéns !

Te desejo sucesso em seu pos-doc Tiago!

Prof. Dr. Rodrigo Alves Dias - UFJF

Matheus Matos disse...

ótimo texto....

Ara disse...

Valeu pela audiência pessoal
abs
Ara

GH of Xaos disse...

Já tinha lido no blog do Thiaguim, mas é um texto que vale ser compartilhado! :)

Biianca disse...

Mto bacana
Chic demais..kkk'

lordpaulos disse...

Caro Tiago,
Estou passando por grandes pensamentos ultimamente, entretanto preciso de sua ajuda e ate mesmo apoio para me direcionar um pouco (diante sua experiência).
Li seu texto postado na internet (post / CEFET-MG) e ele me ajudou muito a inclinar minha decisão... quero sim mergulhar no mundo da física, sou apaixonado pela ciência, porem penso muito também no quesito financeiro futuro.
Amigo quero mais é o seu conselho... a FÍSICA lhe trouxe a devida satisfação, a FÍSICA que você esperava estudar surpreendeu suas perspectivas.
Meu irmão esta fazendo faculdade de Direto na UFG-GO, inicialmente meu plano era para engenharia da computação, mas somente queria ampliar meu conhecimento diante minha profissão atual (Assessor de Tecnologia / GXS/INTERCHANGE/CAIXA - aplicativos EDI/VAN) não é algo que eu tenha prazer em fazer, eu gosto mais faço pela necessidade. Já a FÍSICA me força/motiva a buscar o conhecimento, me da expansões incalculáveis.
Amigo só preciso de um APOIO/CONSELHO, pela sua vasta experiência você pode me mostrar o caminho inicial por onde eu deva começar.

Atenciosamente e no aguardo,

Paulo de Sousa (paulo.gynn@hotmail.com)

KGB disse...

Muito bom o texto! Diz a que veio. Parabéns. Sua mãe.

Jose Henrique disse...

Thiago, seu texto me trouxe algumas reflexões sobre o ensino de administração no Brasil. A ausência de pesquisas dos professores levam as aulas a se tornarem simples transferência de conteúdo bibliográfico para o aluno e às anedotas como base de conclusões. Com essa metodologia o aluno assimila um raciocínio linear tão forte que se torna incapaz não só de resolver problemas, mas de formulá-los.
Abraço
Seu tio, Prof. José Henrique

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